Adágio é sinônimo de provérbio. Mestre Aurélio nos ensina: “Máxima ou sentença de caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em detalhes.”
Com efeito, nada para retratar pedaços de vida que os adágios. Quer ver? Sabemos que as mulheres falam muito. E quando brigam, então, é um Deus nos acuda! E toca a falar a verdade. Aí vem a sabedoria popular e diz: “Brigam as comadres, descobrem-se as verdades.”
Não é verdadeiro? E não é delicioso?
Veja esta outra; “A cabra anuncia mel e vende azeitonas.” É só pensar: a cabra berra “mééé!” e seus dejetos parecem azeitonas. Lembra o sujeito que promete uma coisa e faz outra, muito pior.
Gostamos dos parentes, isto é natural. Mais natural, ainda, é que eles fiquem lá em suas casas e nós em nossas, cada um com seus hábitos, costumes. Mas quando um parente visita a casa da gente por mais de uma semana, aí a coisa fica esquisita. Daí dizer que “Pato e parente só servem pra sujar a casa da gente.” É de Mário de Andrade.
Alguns adágios nem precisam de explicação, tal a clareza de seu significado:
- Amigo, vinho e café, quanto mais antigo melhor é.
- Cabelo branco é capim de cemitério.
- Casar é bom, não casar é melhor.
- Chapéu de pobre vive mais nas mãos que na cabeça.
- Com jeito e afago, mula e mulher fazem o que o homem quer.
Antigamente se dizia:
As desgraças do Brasil
De duas passaram a três:
É formiga “cabeçuda”,
Italiano e português.
Maldoso este adágio. A história já mostrou o tanto que esses imigrantes ajudaram a construir a nação brasileira.
Taí! Uma coisa que parece não soar bem: “político honesto”. É que, ultimamente, político tornou-se uma classe que inspira desconfiança neste país! Ou vai dizer que não?
Gosto muito, também, de anotar os famosos dísticos de caminhão. Vão aí alguns interessantes:
- Amor sem beijo é macarronada sem queijo.
- Por onde passo deixo saudades.
- Trabalho é meio de vida e não de morte.
- Toda cidade tem igreja e tem zona.
- Quem apanha de mulher não se queixa ao delegado.
- Argentino quando é bom, é bom mesmo; a questão é que não hai...
E vai por aí a fora!
Outras graças são os ditados em verso. Os cancioneiros lusitano e brasileiro estão cheios de quadrinhas as quais contêm adágios e outras mensagens. Vejamos alguns:
Toda desgraça do homem
É falar fino e esmorecer;
Largá a muié e morá perto
Pra , todo dia, ela ver.
A mulher e a galinha
Não se deixa passear;
A galinha, o bicho come,
A mulher dá o que falar.
Nasceu: - padeceu, morreu!
Sepultou-se: - a terra come!
Isto é certo acontecer,
Seja muié, seja home!
O mundo está de tal forma
Que ninguém pode entender:
Uns devem, porém não pagam,
Outros pagam, sem dever.
Quem é bom já nasce feito,
Quem quer se fazer não pode;
Por mais que queira se dar jeito,
Boi é boi, e bode é bode!
Esta última quadrinha é ótima a quem faz de tudo para aparecer, seja no jornal, nas rádios, nos discursos... É o poder do dinheiro que não fica esquecido na quadrinha
Gente rica fica doente,
Vem logo o doutor e cura;
Quando o pobre fica doente
O remédio é sepultura.
E assim vai, São Paulo, Minas, Goiás, noites frias de junho, noites quentes de janeiro, em qualquer chão, em qualquer terreiro deste Brasil, lua-cheia, lua nova, cidade ou sertão, de trem ou caminhão, não há caso que escape da cultura popular. E quem se interessar, que compre o livro Adagiário Brasileiro, de Leonardo Mota, Editora da Universidade de São Paulo.
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos