20 de março de 2026

Baita susto


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Algum tempo fora, ao voltar a constatação surpreendente: agora é proibido estacionar veículos em muitas das ruas do centro da cidade. Alguns consideram medida antipática e arbitrária; outros a veem com indiferença; há quem concorde, mas tem medo de dizer. Ninguém me perguntou, mas aprovo a decisão. Na verdade todo aquele espaço deveria ser calçadão e apenas carros credenciados — de moradores e especialmente autorizados poderiam trafegar. Muitas, muitas cidades do porte de Franca — algumas maiores, outras menores, algumas brasileiras, a maior parte estrangeira — adotaram a medida e beneficiaram a população.

Imagino o centro de Franca cheio de pedestres, com direito de escolher algum bar, restaurante ou lanchonete com mesinhas protegidas por guarda-sol em calçadas à frente do estabelecimento durante pausa das tarefas. Imagino crianças brincando nos espaços livres, consigo ouvir seus gritos de farra. Posso ver o comércio em pleno funcionamento e o povo a entrar e sair das lojas sem perigo de atropelamento ou buzinas ou brecadas. Quem me impede de pensar em segurança? Policiamento nas ruas, não para multar, mas para proteger os cidadãos de trombadinhas, pedintes e assédios indesejáveis. E observo os donos de animais levados para passear — cachorro é ser humano! afirma Collor — a recolher os dejetos dos bichinhos. Sonhos. Nada mais que sonhos. Para alcançar tal resultado é fundamental que se tenha educação, que a cartilha de boas maneiras seja do conhecimento de todo mundo e sua observância, rigorosa.

Não visitei a Índia mas dizem que o trânsito é semelhante ao de Franca: desrespeito a limites de velocidade, ultrapassagens pela direita, inobservância de sinais de trânsito, uso de celulares pelo motorista, estacionamentos inadequados — é só um minutinho! —, filas duplas nas portas das escolas. E mais: motos, motinhas, bicicletas — e até pedestres! — que surgem do nada, muitas vezes em alta velocidade e na contramão. Cena comum no panorama francano: acidente de carro mais novo e carro arrebentado. O motorista do segundo não desce, faz cara de coitado, diz que está saindo do banco (foi buscar sua bolsa qualquer-coisa), olha para seu carro em petição de miséria, pede para comparar o seu bom veículo com o dele — tão velhinho! — propõe que você acione o seguro, porque ele não tem como assumir nadinha.

Pressionado pela culpa, você vai embora. Que culpa? Aquela que a propaganda do governo conseguiu enfiar no seu inconsciente. Você trabalha, metade do que ganha o imposto come, outro tanto desaparece nos impostos embutidos nos produtos que compra. Os impostos vão para os bolsos (e tantas bolsas) de políticos, de gente que não trabalha, de ações para manutenção da escória e da esbórnia. Eles não voltam. Quer dizer, voltam sim: em propaganda para dizer o quanto você é responsável pelo país e brasileiros e brasileiras, para dizer da necessidade de sua colaboração enquanto cidadão etc. etc. É bom, mas não é fácil ser brasileiro.

Estava eu a passear pelo centro da cidade e o pensamento me levou... E passeava porque a depressão me pegou. Consciente de que nenhum Rivotril, ou fluoxetina me levantará, apoio-me no desejo de vingança: que os juízes que frustraram nossa esperança ontem, sejam pegos — e estrangulados — nas mesmas teias que ajudaram a tecer com a descabida decisão que tomaram.

Tom Jobim: ‘Morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Morar no Brasil é uma merda, mas é bom.’

Arnaldo Jabor : ‘Ok, Dirceu. Você venceu.’

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br