Quando escreveu Um homem e uma mulher, em 1965, Claude Lelouch era um jovem cineasta de apenas 28 anos de idade. Naquela época era um diretor praticamente desconhecido que estava amargando um retumbante fracasso com seu filme anterior Les grands moments. Quase falido e muito angustiado, certa noite Lelouch entra em seu carro e dirige, sem rumo, de Paris até Deauville (cidade litorânea da Normandia que servirá de cenário para seu prestigiado filme). Lá, chega de madrugada e, exausto, dorme dentro do mesmo, em frente à praia.
Logo aos primeiros raios da alvorada, por volta das seis da manhã, acorda e vê uma mulher andando com uma criança e um cão pela praia e, então, pensa: “O que faz com que uma bela mulher como esta esteja andando nessa praia a essas horas da manhã com uma criança? Talvez ela a veja pouco e queira aproveitar, ao máximo, cada instante que podem passar juntas.” Nesse momento, diz, teve a ideia do roteiro para esse filme que seria sua consagração mundial, o qual escreveu e rodou em apenas três meses.
Lançado em 1966, foi premiado com a Palma de Ouro do grande júri e o prêmio OCIC, ambos do Festival de Cannes em 1966, com dois Oscares em 1967 (melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original), com o Globo de Ouro em 1967 (melhor filme estrangeiro e melhor atriz de cinema drama) e com o BAFTA do Reino Unido em 1968 (melhor atriz estrangeira). Por suas qualidades estéticas excepcionais, tornou-se, de imediato, um enorme sucesso de público e filme cult até os dias de hoje.
Apesar de todos esses prêmios e do sucesso de público, o diretor, detrator ácido da Nouvelle Vague, nunca foi bem aceito pela crítica cinematográfica, sendo, ainda hoje, um criador outsider, dotado de uma linguagem muito pessoal. Tendo feito mais de 40 filmes até agora, numa entrevista recente um Lelouch amadurecido e autoconsciente declarou: “Como sempre alternei sucessos e fracassos, não tive como perder o prumo com os sucessos, pois estava preparado para um novo fracasso logo adiante. Na verdade, o fracasso constrói, o sucesso idiotiza.” Palavras de um gênio....
Mas, afinal de contas, o que fez com que uma estória corriqueira causasse tal receptividade nos meios cinematográficos e ganhasse tanto apelo popular?
Antes de mais nada, é preciso dizer, Lelouch impregnou o filme com seu ato criativo de transformar sua dor depressiva por um fracasso numa obra de arte incontestável, o que enche o filme de um clima de esperança na vida e de humana intimidade. No plano da trama, o que faz com que um roteiro sobre um viúvo e uma viúva, que amam ternamente seus respectivos filhos, seja tão apreciado é a absoluta simplicidade e honestidade com que essa estória- história de tantos de nós é contada.
Dotado de uma fotografia primorosa, de tomadas de câmera absolutamente originais para a época, de uma direção inovadora e de uma trilha sonora deslumbrante, o filme nos convida a dar asas a nossas emoções e a sonharmos, girando inebriados de leveza e de felicidade, junto com aquele casal de apaixonados que se encontra e se entrega mutuamente num abraço infinitamente rodopiante, em uma praia que muito bem poderia ser aquela de qualquer um de nós, em qualquer lugar e em qualquer tempo.
Amanhã, no Centro Médico/ Sede Campestre, dentro da série proposta para este quarto ano do evento pelo grupo Cinema e Psicanálise, o filme será exibido e comentado. Até lá.