Os 380 funcionários da Agabê Calçados que foram demitidos da fábrica de Aracati, no Ceará, em agosto, ainda não receberam. A informação foi passada ontem ao Comércio pelo presidente do Sindicato dos Sapateiros da cidade, Gilberto Angel, depois que tomou conhecimento dos planos de expansão da empresa na unidade de Franca.
Segundo Angel, a Agabê havia se comprometido a fazer o pagamento de todos os trabalhadores no último dia 6. Mas, na data marcada, pediu um novo prazo. “Eles disseram que não tinham o dinheiro e pediram que voltássemos no dia 11. Na semana passada, fomos até lá novamente e só encontramos uma placa no portão dizendo que não haveria o pagamento. Nem uma explicação nos deram”, disse.
O presidente do sindicato afirmou que a dívida da empresa com os funcionários de Aracati chegaria a R$ 2 milhões, referentes ao salário do mês de agosto, aviso prévio, férias e 13º salário proporcionais e a multa de 40% do FGTS. “Não recebemos nem um centavo. Disseram que não tinham dinheiro para nos pagar, mas estão ampliando a fábrica em Franca. Isso não é justo.”
A empresa também não teria liberado as carteiras de trabalho para que fosse dada a baixa e os empregados pudessem pedir o seguro-desemprego. “Estamos sem saída”, disse Angel.
Sem receber, segundo o sindicalista, as famílias estariam enfrentando dificuldades. “Todo dia tem alguém pedindo socorro ao sindicato, mas não temos como ajudar. Não temos recursos para isso”, afirmou.
O presidente disse que foi procurado por advogados da empresa para um acordo na semana passada. “Eles queriam pagar tudo parcelado. Seriam 23 parcelas de R$ 85 mil, rateados entre todos os funcionários, o que daria uns R$ 220 por mês para cada um. Não achamos justo.”
Segundo Angel, a empresa deveria, “ao menos”, ter pagado o salário de agosto. “A demissão pegou todos de surpresa. As famílias não têm como se sustentar. Eles não prejudicaram apenas os trabalhadores, mas toda a cidade”, afirmou.
Aracati é o segundo destino turístico mais procurado do Ceará, perde apenas para Fortaleza. É conhecida pela praia de Canoa Quebrada. Fica a 150 km da capital e tem 76 mil habitantes. “A Agabê era a segunda maior empregadora da cidade. Seu fechamento afetou a todos”, disse Angel.
O sindicalista disse que já ingressou com uma ação na Justiça para garantir o pagamento dos funcionários. “O juiz decretou o arresto dos bens aqui. Eles não podem tirar nada de dentro da fábrica sem autorização. É a nossa esperança. Mas até que tudo se resolva, como fica a situação desses trabalhadores?”
Gilberto Angel disse que tem tentado conversar com os advogados da empresa em Franca, mas não teve sucesso. “Até o representante deles aqui não sabe o que está acontecendo.”
O diretor superintendente da Agabê, Miguel Bettarello, negou qualquer problema de comunicação e admitiu que o pagamento dos empregados está em atraso. “Foram 16 anos de operação, tínhamos um volume alto de funcionários e precisamos acertar alguns detalhes do pagamento para não descapitalizar a empresa, mas já estamos resolvendo tudo.”
Ele garantiu que o pagamento do salário de agosto deve ser feito ainda nesta semana. “O restante vamos negociar caso a caso”, disse Bettarello (leia mais em texto nesta página).