09 de julho de 2026

Chico Franco Criatura e criador


| Tempo de leitura: 5 min

Atenta e comovida diante do milagre que é a literatura, acompanhei, como editora deste caderno, o processo de composição de Chico Franco por Luiz Cruz de Oliveira. A criatura surgiu despretensiosa mas já sugestiva, e, depois, foi ganhando contornos mais definidos, circunstâncias detalhadas, movimentos surpreendentes, vida mental sofisticada. Aos poucos, e ao mesmo tempo em que se caracterizava, revelava gentes, devassava existências, recuperava fatos, recompunha itinerários urbanos, oxigenava lembranças soterradas, e, até, refazia histórias mal contadas, restabelecendo verdades omitidas.

Ao lindar todas as perspectivas oferecidas pela criatura, seu criador ergueu uma Franca que, embora desfeita em brumas no processo de transformação que perfila todas as cidades no Brasil, foi reconstruída pelo poder da rememoração e da palavra escrita. Assim eu descreveria a gênese de Chico Franco, o mais recente livro de Luís Cruz de Oliveira. Conjunto de narrativas curtas, no gênero memorabilia, nele o ficcionista coloca em prática o recurso que é primordial aos cineastas, o olhar. “Olhar é uma maneira de fazer perguntas”, disse o grande Buñuel; e ele é tudo neste personagem saído da imaginação do escritor a quem os francanos admiram e respeitam.

É o olhar, entre surpreso e desassombrado, que conduz o narrador e o personagem, no livro que se constrói altamente plástico. A visão, neste instante em que, ironicamente, o ficcionista enfrenta grande déficit neste campo, é, dos órgãos do sentido, o mais solicitado pelo personagem. Para Chico Franco, ver, de forma míope ou agigantada, coesa ou fragmentada, distorcida ou límpida, refratada ou íntegra, embaciada ou luzidia, é sempre jeito lúcido de se interrogar sobre o passado em cuja importância já ninguém se detém. Se “todos os caminhos dão na venda”, como diz Graciliano Ramos pela voz de Paulo Honório no romance São Bernardo, todos os olhares de Chico Franco dão na Franca da primeira metade do século passado. A reconstrução detalhada constitui um dos grandes trunfos do livro, e só foi possível graças à extraordinária memória de Luiz Cruz de Oliveira e à sua disposição para pesquisar quando lhe faltaram dados e datas. Outro trunfo, tão importante quanto este, permanece a maior parte do tempo nas entrelinhas, como uma queixa dolorida, misto de indignação e tristeza, percutindo o descaso da comunidade francana em relação ao seu passado: é a voz crítica.

No texto final, escrito especialmente para conferir um fim ao personagem e à série de narrativas reunidas, o narrador-escritor se aproxima intimamente do protagonista e, como se fosse o próprio, faz emergir de forma clara seu lamento usando a primeira pessoa do discurso. Ao se vincular à sua criatura, recurso lírico e técnico para encerrar a história que se propôs a contar, o criador não só amplia sua voz e registra sua frustração, como se torna ele próprio o explícito porta-voz das demandas do personagem. Ficção e realidade se fundem. O verossímil atinge nível de verdadeiro. O extinto não é menos real na memória que alcança o restauro.

Quando Cruz me narrou, meses atrás, sua intenção de reunir os textos que tinham Chico Franco como protagonista, achei que era destino natural de personagem que já ganhara o afeto do público. Passava da hora de o enfeixar num volume, para a integral avaliação do leitor que o vira em muitas edições do Nossas Letras. Num livro suas histórias ganhariam maior densidade, corrigindo o caráter autônomo do texto de jornal, tendo ainda como acréscimo capítulo final inédito e essencial. A ideia de se vestir como Chico Franco, e posar para as lentes de um fotógrafo sensível às artes como Dirceu Garcia, da equipe GCN, foi um plus ao sentido da obra. As fotos não apenas ilustram o conjunto de textos; também ensejam ao leitor contextualizar protagonista/ficcionista nas ruas da cidade, junto aos espaços que ambos elegeram como significativos e que são, também, parte do patrimônio emocional de muitos francanos.

Chico Franco será lançado hoje, na Livraria Sebo Almanaque, das 10h30 às 12h30. Compareça, compre o livro e, com ele, a bengala e seu toc-toc, o chapéu Panamá, as gravatas sóbrias, o terno branco, o suor, o cansaço, as frases recorrentes, o esforço para trazer ao presente o passado. Ao folhear as páginas encontre antigos craques, velhos e novos poetas, comerciantes, professores, leiteiros, médicos, políticos, agricultores, sapateiros, curtumeiros, tipos curiosos... A cada capítulo surpreenda-se com nomes e conceitos de lojas, padaria, vidraçaria, escola de datilografia, livrarias, marmoraria, cinemas, farmácias, bares, restaurantes... Em todas as páginas descortine uma cidade inteira, pulsante e singular nos primeiros 50 anos do século passado.

Olhe e veja. Não se deixe contaminar pela “esclerose coletiva” de que nos fala o narrador de Chico Franco. Memória é identidade: esquecer isso é sempre alienante e pode se tornar trágico.


O escritor

Luiz Cruz de Oliveira.

Nasceu no dia 13 de dezembro de 1941 na mineira Cássia.

Na infância vendeu revistas na rua, leite de porta em porta; trabalhou em farmácia, parque de diversões, como engraxate, entregador, ajudante em escritório. Formou-se em Letras em 1970. Aposentou-se no Banco do Brasil. Foi professor concursado no Estado de Minas Gerais. Lecionou em cursinhos. De sua bibliografia constam 19 títulos.

1970 - Outra janela em Graciliano Ramos; 1977 - Vida Só; 1977 - Saozé Futebol Clube; 1979 Teatro; 1980 Pocilga; 1982 Sussuarões; 1984 - Deuses mutilados; 1985 - ABC da intelecção de textos; 1986 - Caminhos da esperança; 1987 - ABC do conto (coautoria com Regina Helena Bastianini e Roberto Zanin);1991 - Via Crucis; 1993- Compreensão de Textos I e II; Produção de Textos; Dissertação Argumentativa I e II (coautoria Regina Helena Bastianini e Sebastião Expedito Inácio); 1995 - Retrato em 3x4; 1995 Estrelo; 2001 Bilhetes; 2002 Vivalei; 2003 Trilhas; 2004 - O negro do protesto; 2005 - Esboço de História da Literatura Francana;2006 - Os Anônimos; 2006 - Por enquanto canto; 2009 - Córrego das Pedras; 2010 - Cantos e Desencantos; 2012 - Lições Básicas de Português (coautoria Regina Helena Bastianini e Marco Antônio Soares Silveira);2013 - Chico Franco.

Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora