Tenho olhado todos os dias para minhas prateleiras de livros, minha biblioteca particular e meu olhar tem me feito perguntas. Já li demais e continuo lendo. Isso é muito bom e me alimenta, mas a questão é: E agora? O que faço com tudo isso? Para onde esses livrosme levam?
A leitura é um deleite, um prazer, mas sinto nesse momento de vida, quando já ultrapassei a barreira dos 60 , que alguma direção se faz necessária. Acho hoje um pouco estranho tudo que estudei na Faculdade sobre linguística e minúcias das minúcias das interpretações literais dos grandes autores. Isso não me interessa mais. Parece-me, desculpem-me os colegas, um pouco de perda de tempo. É bonito? É inteligente? Sim, mas no momento das minhas dúvidas maiores, quando dominada pelos grilhões do medo e das incertezas, não é a leitura semiótica que vai me fazer voltar ao meu eixo, ou ao meu centro. É muito mais a doce poesia daquele olhar da criança que me abraça e me faz sorrir. O conhecimento detalhado, criado e recriado pela mente humana permitem ao ego fartar-se das experiências que lhe são continuamente retransmitidas. É assim que ele infla, engorda e adoece. Vejo pessoas brilhantemente inchadas na cabeça, mas o corpo está doente ou esquecido. Minha geração, minha família, meus amigos privilegiaram sumariamente o intelectualismo, mas quanta doença eu vi acontecer... Há dentro de nós uma testemunha que podemos chamar de alma, de liberdade , ou daquele que vê. E o que deixamos que ela veja? Comportamentos arraigados que nos condenam a reviver eternamente as mesmas situações, embora sob uma aparente variedade de formas e combinações. E nos julgamos poderosos e inteligentes.
Minhas escolhas me trouxeram até aqui. O que eu fiz da minha história tornou-me o que sou hoje, ou pelo menos o que eu penso ser. No entanto, vislumbro aparente intelectualidade e pouca profundidade quando prefiro muito mais as certezas fáceis do que caminhar por territórios de risco. Hoje sei que sou algo mais do que aquilo que me reconheço. Sinto a falta essencial que pode estar nos livros, mas não pode viver lá eternamente. Essa sabedoria dos grandes mestres das palavras tem que fazer sentido nos meus passos, nas pegadas que deixo por onde caminho, pois do contrário, sou apenas aquela que já leu este e outro autor, que descobriu e achou belíssimo tal e tal livro, mas que continua distante da vida real, pois é incapaz de fazer a ponte entre luz e sombra. Não adianta tanta luz se mal consigo abrir a janela do meu quarto.
Há um lugar em mim que quer mais luz, mais luz. É preciso que eu faça a tentativa de recriar-me. O caminho é outro, os autores são outros. É hora de pensar com o coração, dentro de uma perspectiva que me pede um mergulho. O pote está cheio. Esvaziar-me agora para olhar do que eu me enchi. Se eu me enchi de nada, eu só posso oferecer minha carência, minhas projeções. É hora de contemplar a própria alma. Meus livros me trouxeram até aqui. Sou grata a todos. Mas agora são eles é que me pedem para ir além de suas páginas de papel.
Jane Mahalem, escritora