As consequências da desvalorização do real (quase 16% até o final de agosto), estavam previstas. Num país como o nosso, de costumes frágeis e estruturas econômicas débeis, o rastilho dessa movimentação foi fatal. Agosto foi embora e deixou índice indigesto de IPCA: no mês, os preços, segundo o IBGE, subiram 0,24%. No ano, a inflação chegou a 3,43% e nos 12 últimos meses, alcançou 6,09%. (A meta perseguida pelo BC é de 4,5%, com variação de 2,0% para mais ou para menos.)
O desarranjo começa nas contas públicas, onde a contabilidade é altamente criativa, mas os resultados concretos não são favoráveis. Faltam-nos vigor e volume na formação bruta de capital (investimentos) e sobram-nos excesso nas despesas correntes. Enquanto isso, a carga tributária continua elevada, em torno de 36% do PIB, e a plataforma de exportações é precária.
Temos um estranho vínculo cultural de convivência com inflação, que gera costumes indesejáveis, associados a comportamento econômico que beira a paranoia. A qualquer sintoma de alteração, seja na exígua safra de tomate ou na situação cambial, os preços sobem de maneira irracional. A recíproca não é verdadeira. Nessa paranoia há outro componente maléfico, a indexação, que perpetua a inflação. Em alguns casos, é contemplada nos contratos, sobretudo os de concessões de serviços públicos. Noutras, é parte de usos e costumes de agentes econômicos. A qualquer sinal de turbulência, apela-se para a indexação.
É aí que mora o perigo. Viver com inflação é viver na injustiça econômica, onde quem têm muito não perde e quem têm pouco perde muito. A gestão da política econômica numa sociedade desequilibrada e vulnerável como a nossa deveria nos conduzir, sem apelar para experimentações, a preços estáveis, onde o crescimento fosse constante e a distribuição de renda tão justa quanto possível.
Vicente de Paula Oliveira
Economista; FEA USP