08 de julho de 2026

O bom de envelhecer


| Tempo de leitura: 2 min

Para colher, preciso plantar; para plantar, preciso crer; para crer, preciso permanecer jovem.

Do ruim de envelhecer todo mundo fala, não preciso falar o que é de domínio público. Com o passar do tempo, vejo e sinto coisas boas, por exemplo, não preciso de tanto sono, o que me incomodava, pois se não dormia oito a dez horas por noite, ficava irritada, fora de esquadro. Sinto-me mais desperta com menos horas de sono, com uma mais valia de vida, sem efeitos colaterais. Estou descansada e pronta, mais econômica e produtiva, com um dia alargado para viver. Escolho o que comer e beber qualitativamente, hoje, e tenho consciência da limitação de tempo, em previsão aproximada, para desfrutar do meu corpo. Eu me vejo como um investimento ecológico, vital, com recursos exauríveis: bem diferente da minha perdulária juventude, que não contabilizava perdas e danos, ou um fim deles.

Não mais me irrito com facilidade. Investi duas décadas em análise, em sábias amizades, no convívio conjugal e na maternidade, experiências íntimas de grande impacto na minha usina psíquica. Por exemplo, ódio é um sentimento-ladrão de investimentos, e tenho um radar potente, para detectar a sua agressiva presença, interna e externamente. Odiar, no meu léxico, só o que exige ser odiado; não as pessoas, mas gestos indecentes e kamikazes, a pornografia da violência gratuita, bullying, sado-masoquismo, atitudes fascistas. Há sentimentos que podem penalizar e castigar quem os sente por algo ou alguém, e quem sofre ataques de outro alguém, motivados por: competição, inveja, ciúmes, remorso, ressentimento, arrependimento...etc..

Desde pequena, não guardo ressentimento ou arrependimento, uma bênção. Errei, erro, e continuo errando na vida, mas vejo o erro como um risco inevitável. Como criar convicções, memórias, recursos, sem correr riscos? Na peneira do que vai e vem, descobertas sobre minhas limitações e recursos. Sem remorsos e ruminações: se tivesse feito, se não tivesse feito, se o outro tivesse feito ou não... Poupa-se uma reserva de energia para investimentos futuros. Aliás, errar tem outro belo significado que é vaguear, perambular sem destino exato. Nas circunstâncias decisivas, suspendo a arrogante e perniciosa ideia de que posso controlar e decidir, racionalmente, o melhor para mim. É desgaste inglório com o que não se domina e não se controla.

Inveja e ciúme são sentimentos insidiosos e traiçoeiros, deve-se respeitar sua leal inimizade, e não subestimá-los, já que eles ensinam pela dor e não com amor que há erva daninha a crescer no jardim da alma, permanentemente. Quanto à competição, acho graça dela e procuro colocá-la a meu favor, uso sua ansiosa e prestimosa concorrência.

Envelhecer tem essa graça: tudo se sente e se experimenta com nova sensibilidade. Respostas envelhecem, as perguntas nos renovam, minuto a minuto, oxigenadas pelo incessante movimento da vida. Uma boa pergunta pode adiar o sono eterno. Amém.

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)