Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou a intenção de uma intervenção armada para “proteger a população civil” da Síria, que estaria sendo atacada com armas químicas, parecia um “déjà vu”. Dez anos atrás o então presidente norte-americano George W. Bush anunciava a invasão do Iraque como parte de sua guerra contra o terror, garantindo que o ditador Saddam Hussein possuía um arsenal nuclear e armas químicas que poderia usar contra os seus inimigos. Em dois momentos diferentes, praticamente a mesma história.
Hoje, já se sabe que não era bem assim. O Iraque não tinha o arsenal ameaçador, Saddam Hussein foi deposto, fugiu, acabou sendo encurralado em um buraco, julgado, condenado e executado. Porém, a paz que se esperava não veio: até hoje o país do Oriente Médio continua conflagrado, mesmo com a saída da maioria das tropas dos EUA, Reino Unido, França e Alemanha (que integraram as forças da Otan). Os ataques mortais se multiplicam, causando vítimas a cada dia. O mesmo ocorre ainda com o Afeganistão e com a Líbia. E a Síria pode ser a próxima.
Uma paz duradoura e total está bastante longe: não existe paz pela metade ou em pedaços. E a principal causa da maioria destes conflitos que o Comércio noticia diariamente é a intolerância. Intolerância racial e religiosa causa a maioria dos confrontos, principalmente no Oriente Médio: são palestinos contra judeus; Irã contra Israel; militares contra muçulmanos no Egito; católicos contra protestantes na Irlanda; e uma série de outros conflitos que poderiam ser resolvidos facilmente se não houvesse um fanatismo religioso que leva à violência. Num mundo onde não se aceitam as diferenças, dificilmente será possível viver em paz.
A sede de poder também tem sua parcela de responsabilidade neste estado de coisas. Bashar Al-Assad, presidente sírio, aferrado ao seu posto, não aceita — e nem admite — oposição. Por isso, chega-se a uma situação intolerável que está por exigir uma intervenção que dê um basta ao banho de sangue que há mais de um ano assola o país, numa guerra onde os civis são os que mais perdem. Nenhum dos organismos internacionais como ONU (Organização das Nações Unidas) ou Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte) conseguiu desenvolver mecanismos capazes de intervir, de forma pacífica, neste tipo de conflito.
Por estas e milhares de outras razões, corre o mundo o risco de acompanhar, mais uma vez ao vivo — com a televisão e a internet mostrando tudo em tempo real — a morte de combatentes e civis, numa escalada que o mundo não está mais disposto a acompanhar. No final, ninguém assume o ônus desta violência desmedida, destes conflitos provocados pela intolerância. O poderio militar, hoje, já não é mais capaz de coibir ações de governantes despóticos como Bashar Al-Assad, da mesma forma que Muammar Khadaffi e Saddam Houssein já foram em ocasiões passadas. As ditaduras passam, mas não são substituídas pela tolerância, única ação capaz de trazer a paz tão sonhada ao nosso mundo.