‘O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta’
Niccolò Machiavelli, escritor e diplomata italiano
A galinhada, prato típico mineiro, é quase uma unanimidade. Difícil encontrar quem não goste da mistura de pedaços de frango com arroz, pitadas generosas de cheiro verde que conferem frescor, açafrão e louro para quem aprecia e uma boa pimenta para garantir a picância necessária. Há quem prepare acompanhada de quiabo, mandioca cozida e farofa, mas a versão predominante reserva à iguaria a condição de única protagonista: serve-se o arroz com pedaços de frango e nada mais.
A mistura de arroz e frango, com ou sem quiabo, mandioca e farofa, se presta muito bem às comemorações com amigos e às domingueiras reuniões de família. É também santo remédio para atenuar os efeitos da ressaca, razão pela qual é cardápio obrigatório nas ranchadas que tanto animam os francanos. Nestas ocasiões, é normalmente servida de madrugada, para reduzir nos comensais os efeitos das longas horas de piscina, represa, lancha, truco, conversas e muita, muita cerveja, cachaça e os seus derivados.
Foi exatamente uma galinhada que assessores dos vereadores de Franca escolheram, na última quarta, para servir como prato principal num festivo almoço organizado no refeitório da Câmara. Admito que, do ponto de vista dos assessores, a escolha não poderia ser mais apropriada. De um lado, os cheiros e sabores do frango misturado ao arroz embalavam a alegria pelo impressionante presente que horas antes os assessores tinham ganhado de seus patrões, os excelentíssimos vereadores. Do outro, seus efeitos ‘terapêuticos’ eram muito bem-vindos para reduzir o impacto da fúria daqueles que, sem serem consultados, foram chamados a pagar a conta do magnífico presente: nós, os contribuintes. Há quem prefira nos chamar de idiotas. Não culpo quem pensa assim.
O tal presente foi dado dezoito horas antes, na tarde de terça, no apagar das luzes de uma sessão turbulenta. Na véspera da galinhada, hordas de manifestantes ligados à área de Saúde do município tinham lotado as galerias da Câmara para pressionar os vereadores a elaborar um projeto que regulasse a jornada de trabalho da categoria. Apesar de originalmente contratados para oito horas diárias, há 23 anos os profissionais trabalham seis horas por dia. Sem qualquer tentativa de acordo, o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) resolveu impor sua vontade e exigir as oito horas. O clima ficou tenso.
Também naquela terça-feira as galerias da Câmara foram ocupadas por camelôs. O grupo estava inconformado com outra decisão de Alexandre Ferreira. A partir de agora, os camelôs teriam que desmontar suas barracas nos finais de semana para que as praças sejam limpas. Só isso. Mesmo assim, eles reclamavam e queriam que a Câmara aprovasse uma lei para acabar com o monta-desmonta-remonta.
Foram horas de muitas discusões, gritaria, protestos, pressão. No final, venceram os camelôs, que conseguiram o que queriam. Os profissionais de Saúde não tiveram o mesmo resultado. Seus pleitos foram negados sob a desculpa de que qualquer ingerência da Câmara seria ‘inconstitucional’.
Passava um pouco das seis da tarde quando o ritmo lento e as galerias vazias indicavam fim de sessão. De repente a voz do primeiro-secretário, Luiz Carlos Vergara, anuncia um ‘novo’ projeto. ‘Senhor presidente, há um pedido de urgência na mesa’, disse, pontualmente às 18h27. Com a ‘urgência’, o projeto, de ‘autoria coletiva’, expediente recorrente quando ninguém quer assumir a responsabilidade pelo que será discutido, deveria ser debatido e votado ainda naquela terça.
Houve então uma pausa de vinte minutos, tempo reservado para a troca do DVD que grava as sessões. Retomada a sessão, o projeto foi discutido e aprovado em tempo recorde: cerca de um minuto. Por 12 votos a favor e apenas dois contra - de Márcio do Flórida (PT) e Claudinei da Rocha (PP) - os vereadores decidiram conceder aos seus próprios assessores um aumento de R$ 600 mensais. O reajuste, de 22,3%, fez com que o salário subisse de R$ 2.691 para R$ 3.282.
O presente foi apenas a cereja do bolo. Nos últimos meses, os afortunados assessores já foram agraciados com vale-refeição, de R$ 400 mensais, e com o aumento concedido aos servidores municipais, bem menos sortudos, de modestos 5,91%. Assim, os 22,3% significam aumento real, acima da inflação, para os assessores. Desconheço qualquer outra categoria no Brasil que tenha tido benefício semelhante.
A besteira está feita, a população revoltada e a imagem dos vereadores, afetada, mas ainda existe uma chance de atenuar o desgaste. Em alguns dias, o projeto segue para segunda votação. É uma imposição legal. Se tiverem algum senso, os vereadores recuam e engavetam o absurdo. Até lá, enquanto os assessores saboreiam a galinhada, a gente rói o osso.
Se o aumento for mantido sem uma ampla discussão, a alternativa será anotar o nome de todos os doze que votaram a favor deste absurdo. O tempo passa rápido e dentro de três anos haverá eleições municipais. Será hora então de transformar o voto em ‘remédio’ ainda mais eficaz do que uma galinhada. E sem risco de indigestão. Pelo menos, para os eleitores. Impossível garantir o mesmo para quem insiste em tratar o povo feito palhaço.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
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