09 de julho de 2026

Aumento dos assessores é quase 3 vezes maior que dos sapateiros


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Maurício Bezerra foi com nariz de palhaço na sessão que terminou com o “reajustaço” para os assessores parlamentares

Foram 90 dias de negociações, 15 empresas paradas e sete mil sapateiros de braços cruzados. Somente após a greve, a categoria com maior número de trabalhadores registrados em Franca, cerca de 30 mil, conseguiu, em março, um reajuste salarial de 9%. O piso foi para R$ 871. A jornada no chão da fábrica é de 44 horas semanais.

Perto de oito mil pessoas trabalham no setor comercial em Franca. O dissídio coletivo começará este mês. “Estamos pleiteando a inflação do período e mais 5%, mas isto não sai nunca. Se repetir o índice que conseguimos no ano passado, que foi de 8%, está ótimo”, disse Reginaldo Galvani, presidente do sindicato da categoria.

A correção de 5,9% concedida aos 4,5 mil servidores públicos do município só foi aprovada pela Câmara após longo e tenso debate ocorrido em março. Duas emendas fixando a revisão em 6,77% foram rejeitadas pelos vereadores. Daniel Radaeli (PMDB) classificou de “passa-moleque” o projeto apresentado em regime de urgência pelo prefeito Alexandre Ferreira (PSDB). “Estou vomitando sapos”, disse, à época, o delegado.

Não foi preciso greve, nem perder tempo, muito menos discutir. Só esperar a noite chegar e o plenário esvaziar. Em menos de um minuto e em completo silêncio, os vereadores concederam 22% de aumento real (já descontados os 5,9% da correção da inflação concedida no começo do ano) para os seus assessores particulares, que são nomeados por indicação política, na sessão passada. Em questão de segundos, o salário dos 15 privilegiados saltou de R$ 2.691 para R$ 3.282, sem contar o vale alimentação. O projeto foi apresentado em regime de urgência quando a sessão caminhava para o seu desfecho, um autêntico “passa-moleque”, como diria Radaeli.

O percentual de aumento real dado pelos vereadores aos assessores é mais do que o dobro que os sapateiros conquistaram este ano. Comparando-se com a correção esperada pelos trabalhadores no comércio, o reajuste foi três vezes maior. “Foi uma posição contra o povo. O dinheiro sairá dos impostos pagos pelos contribuintes, muitos deles, sapateiros. Repudio a atitude dos vereadores. Eles deveriam fazer as discussões com clareza e, não, na calada da noite”, disse Fábio Cândido, presidente do Sindicato dos Sapateiros.

Superior
Não é apenas no comparativo com os reajustes conquistados pelas principais categorias atuantes em Franca que o presente dado pela Câmara aos assessores foge dos padrões. O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) analisou os aumentos conquistados nas negociações coletivas de 328 unidades de negociação da indústria, comércio e serviços - no setor privado e em empresas estatais - com data-base no primeiro semestre de 2013. Deste universo, apenas 0,6% das categorias obtiveram um reajuste de mais de 5% acima da inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que foi de 6,39%. No estudo, não há referência de correções que atingiram 22%.

Os assessores dos vereadores de Franca parecem mesmo ser uma categoria “diferenciada”. Em março, eles já haviam sido beneficiados pela revisão geral anual de 5,9% repassada a todos os servidores públicos do município. No mês seguinte, passaram a receber um vale alimentação mensal de R$ 440.

Críticas
Há uma chance do reajuste de 22% concedido terça-feira ser revisto. Para entrar em vigor, o projeto de lei precisa ser aprovado em segunda votação, dentro de 15 dias, e parte dos vereadores, após as críticas e repercussão negativa, afirma que vai recuar e mudar o voto.