08 de julho de 2026

Desafio estimulante


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Fazia tempo que não conversava com crianças. Confesso, fujo das oportunidades. Sou um cara muito sério, com uma cara muito feia, e voz que — garantem — não dá prá cantar Boi da Cara Preta para criança dormir.

O convite para ir à EMEB ‘Florestan Fernandes’, no Vera Cruz, teve a assinatura da professora Renata Amato, e era específico: o Saresp deste ano vai pedir aos alunos dos quintos anos, ‘Cartas de Leitores’. ‘Você poderia conversar com eles, para contar sobre seu trabalho de Editor de Opinião do Comércio, convivendo com comentários de leitores todo o tempo?’.

(Tinha mais dois convites, um para conversar com 37 coordenadores de escolas da rede municipal de ensino e outro, para falar a professores da EMEB ‘Fausto Alexandre Teodoro’, no Santa Bárbara, sobre o mesmo tema, que já havia aceitado. Mesmo sabendo que me encontraria com representantes de mais de 17 mil alunos, não houve ansiedade).

O convite de Renata me trouxe preocupação. Vi-me, novamente — apesar dos 44 anos de experiência com comunicação social — como no primeiro dia em que me apontaram em público e disseram: fale! Aceitei, mas, até chegar a data, tive palpitação, suores, insegurança. Como falar a crianças sobre políticos que enfiam os pés pelas mãos; sobre insegurança pública, impunidade, péssimo transporte público, extinção da família, trânsito que mata, mães que traficam junto aos filhos, corrupção, má distribuição de renda e toda sorte de mazelas que remetem pessoas a, auge da insatisfação, remeterem pontos de vistas a jornais, revistas, meios de comunicação em geral? Não dá para adocicar palavras, deixá-las menos contundentes.

Entrei no auditório no qual o refeitório da escola se tornou. Estavam lá. Quase cem crianças, olhos vivos e curiosos, me observando. Respirei. ‘Oi, meninos’. Em coro, responderam ‘Oi, Luiz Neto’. Caramba. O som da voz de crianças é inocentemente diferente. Senti-me como que abraçado. O encontro, de duração agendada para 40, 50 minutos, durou mais de uma hora. Os alunos da ‘Florestan Fernandes’ me conquistaram. Cumprimento professores, funcionários e o time da escola, através da diretora Paula Furco, da coordenadora pedagógia, Marina Avelar e, claro, da professora Renata. Estão formando cidadãos focados, respeitosos e dispostos a aprender segundo suas idades.

Penso, no entanto, que a Secretaria Estadual de Educação não deveria exigir que crianças do ensino fundamental emitam opiniões argumentando sobre o mundo adulto. Poder de argumentação a gente só adquire depois de ganhar muita informação e experiência de vida.

Poderiam estimular, isto sim, rodas de conversas, grupos de discussão, deixando que crianças se sintam livres para falar de seu próprio universo, contrapondo-o aos cenários das notícias. (A professora Vanda Marques, hoje coordenadora de escola, viveu experiência do tipo quando dava aulas. Publico, amanhã, na Página 2A deste Comércio, texto que lhe pedi que escrevesse.)

A dica é simples: quando alguém lhe apresentar a possibilidade de desafio igual ao que enfrentei, permita à sua própria criança que aflore. (Sim, você ainda a tem, mas mantém presa em seu interior, quase nunca lhe dando liberdade). É bom, e remoça a gente.

Encontrei na ‘Florestan’, professores vocacionados e alunos atentos. Certamente essa fagulha de consciência – que insiste em se produzir mesmo e apesar do sistema tentar engessar tudo em rotina perigosa - haverá de basear a única revolução educacional capaz de devolver ao Brasil ao rumo do bem e do justo: a reeducação dos pais pelos próprios filhos. Olhem atentamente nos olhos de crianças atentas. Há uma luz, neles.

Luiz Neto
Editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br