Não fizemos a lição de casa. Não arrumamos as contas públicas. Não estruturamos política de exportações que contribuísse para balança comercial equilibrada. Não fizemos investimentos requeridos pela infraestrutura. Preferimos estimular o consumo.
Apostamos todas as nossas fichas na utilização da taxa de juros para o combate à inflação. Com isso, atraímos capitais (hot money) que vieram em busca de rendimentos superiores aos oferecidos em países desenvolvidos.
A economia brasileira é parte da economia mundial e nada do que acontece aqui nos é indiferente. Não dá para entender é a surpresa de agora.
Mesmo com reservas cambiais estimadas em US$ 370 bilhões - e intervenções pontuais e programadas do BC no mercado de câmbio, o fato é que o encanto (cambial) se quebrou, e o estrago se espraiou em diferentes direções. Estamos diante da alta do dólar. De janeiro até semana passada a alta foi de 19,68%.
O primeiro perigo é a inflação. A outro, vem junto: é a indexação generalizada que perpetua aquela. E o mais cruel dos males: nessa atrapalhação estamos jogando fora - como quem joga fora a criança com a água do banho - o esforço feito desde 1994 para implantar o Plano Real e, com ele, civilizarmo-nos como economia que participa da economia internacional, dos negócios do mundo.
A inflação já supera o teto da meta perseguida pelo Governo. Os portos continuaram apresentando deficiências - como o de Paranaguá, por exemplo - o investimento público, como já demostramos por aqui, permanece empacado, o Governo até há pouco procurava, via bancos oficiais, a favorecer o consumo. O PIB brasileiro deve crescer bem menos que a taxa anunciada.
Com esta alta do dólar, parece que trouxemos para dentro de casa os males do mundo, colocando no problema nossa pitada de contribuição, a incompetência da política econômica. O saldo da balança comercial é prova disso.
Vicente P. Oliveira
Economista; FEA USP