É possível o ser humano aprender com os cães? Em razão de uma reforma, fui obrigado a, momentaneamente, enviar o Beethoven (cachorro da raça labrador) para a chácara de meus pais.
Lá tem outro labrador (Watson) e uma Boxer (Bia). Os cães dessas raças são dóceis, companheiros, brincalhões e carinhosos. Para quem gosta, são boas opções. Qual o problema? Sabia que dois machos em um mesmo local podem não combinar, mas acreditava que se dariam bemo. Doce ilusão.
O Beethoven logo que viu Watson, mesmo estando preso na carroceria do carro, pulou furioso. Coloquei os dois lado a lado no canil, pareciam que iam se entender, mas, quando os soltei, imediatamente, se estranharam. Não eram os cães que conheço. Por outro lado, cada macho, separado, com a fêmea se deram super bem. O estranhamento se deu entre eles, certamente, por ‘disputa’ de território.
Fazendo um paralelo entre os cães (animais irracionais) e os seres humanos (animais racionais) confesso que vejo em nossas ações condutas semelhantes às deles. Somos capazes de nos desfigurar quando nos sentimos ameaçados. Se for necessário destruímos os outros para manter o poder, o status, o território. Acreditamos que isso é racional. Os dois cães poderiam estar juntos desfrutando da liberdade da chácara; no entanto, até que se aceitem, terão a liberdade restringida. Enquanto um está no canil (preso) o outro livre. Acredito que os cães conviverão bem, mas precisam de um tempo para se adaptar, pois, o novo é ameaçador e conviver exige concessões.
Na vida, muitas vezes, agimos por instinto e sem reflexão. Fazemos coisas que duvidamos que seríamos capazes. A palavra, a comunicação, nos diferencia dos animais. Condutas agressivas existem quando a palavra não é mais suficiente. O triste é ver, cotidianamente, humanos agindo com violência para ‘tentar’ resolver conflitos; no entanto, ao destruir os outros, acabamos por destruir e restringir a nós mesmos. Somos racionais, logo, piores que cães?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário