Faltassem motivos para retornar às ruas, bastaria olhar a minirreforma eleitoral que tramita na Câmara dos Deputados. Já nas próximas eleições pretende-se flexibilizar prestações de contas de candidatos e legendas, liberando de demonstração detalhada dos gastos. Quer-se, também, liberar propaganda na mídia impressa, propaganda paga na internet, imunizar candidatos de crimes eleitorais etc.
Tudo para favorecer a perpetuação do abuso do poder econômico-financeiro, isto é, para que ele continue manobrando o poder político, com violação da regra de igualdade de oportunidade eleitoral. A desfaçatez constitui estímulo suficiente para voltarmos às ruas.
Um dos graves problemas de países em processo de modernização como o Brasil, é que neles não faltam somente ‘alimentos, alfabetização, educação, riqueza, renda, saúde, produtividade e uma comunidade política forte, assim como governo com eficiência, autoridade e legitimidade’, e sim, sobretudo, emancipação moral e ética. Nestes tempos modernos, falta exemplaridade e sobra vulgaridade.
A consequência nefasta do apagão ético dos políticos conduz, inevitavelmente, à inexistência do senso de comunidade política que leva cada dirigente, indivíduo, partido político e o próprio político a buscar apenas seus próprios objetivos materiais imediatos, e a curto prazo, sem qualquer consideração pelo interesse público comum.
Já com os primeiros sinais de refluxo dos protestos, políticos começam a abandonar a agenda positiva, que atende os clamores sensatos das ruas, para retornar à tendencial negatividade da sua rotina trambiqueira, ou seja, votação de privilégios e benefícios para eles próprios. Não entendem que o termômetro da saturação do povo chegou ao limite conforme indica a 114ª pesquisa do CNT/MDA, realizada em julho: a insatisfação com a corrupção está em 55%.
Luiz Flávio Gomes
Jurista