Terra de ninguém. Um lugar onde é possível consumir drogas e bebidas alcóolicas sem ser incomodado, estacionar em lugar proibido - em cima da calçada ou no meio da rua -, trafegar em alta velocidade, escutar música na altura que os ouvidos mal suportam e assistir ao “show” de mulheres seminuas dançando funk sobre carros e marquises (muitas visivelmente menores de idade).
Os relatos acima descrevem de forma real a rua Vicente Richinho, no Distrito Industrial, no período de quinta a domingo, a partir da meia-noite.
O local, que se transforma em uma espécie de baile funk a céu aberto nos finais de semana, já foi alvo de denúncia do Comércio em fevereiro deste ano. Na época, a reportagem flagrou um menino entre 9 e 10 anos consumindo maconha.
Hoje, seis meses depois, o cenário visto é parecido ao já ilustrado nas páginas do jornal. Na época, autoridades prometeram ação para impedir a “festa”, mas empresários da região garantem que elas aconteceram apenas enquanto a matéria repercutia. Hoje, mesmo enfraquecido em algumas noites, o “batidão” acontece.
Um homem que trabalha na Vicente Richinho e pediu para não ser identificado por motivos de segurança conta que poucas semanas após a publicação da reportagem, o “pancadão” voltou a acontecer. “Por alguns dias, a rua ficou deserta. A polícia fez ações para coibir o tráfico e o uso de drogas e multou carros estacionados em locais proibidos. O Conselho Tutelar também atuou, mas foi só a poeira baixar que nunca mais apareceram”, afirma.
Segundo ele, mesmo quando a polícia é acionada na rua, não aparece. Ainda de acordo com o entrevistado, há alguns dias um dos prédios da rua Vicente Richinho foi arrombado pelos baderneiros, que arrancaram os fios da cerca elétrica e quebraram um portão. Os arruaceiros só não entraram nas dependências do imóvel porque um cachorro de guarda impediu. “O dono da empresa arrombada chamou os policias, mas eles só apareceram quando não havia mais ninguém na rua e resistiram em registrar a ocorrência.”
Ele afirmou também que quando o endereço está tomado de gente é impossível transitar de carro pela rua. Automóveis fecham as duas entradas do quarteirão para deixar expostas suas caixas de som e luzes de neon nas mais variadas cores. Ao redor dos veículos, grupos de crianças e jovens se aglomeram dançando e se exibindo ao som do funk pesado. Não é possível ter certeza, mas pelas cenas gravadas por um dos empresários da região assistidas pela reportagem é difícil acreditar que algum dos frequentadores tenham mais que 18 anos.
Flagrante
Na madrugada da sexta-feira passada, por volta da 0h30, a imensa maioria carregava um copo nas mãos. De dentro dos carros estacionados, saíam com as garrafas de bebidas e o que parece ser uma espécie de vodca colorida, vedete na mão dos jovens. Outros tomavam cerveja.
Não é raro encontrar no meio desse pessoal gente consumindo drogas. No último dia 22, o Comércio flagrou um homem que tranquilamente estacionou sua moto e enrolou cigarros de maconha. Depois, com a mesma calma, desceu do veículo com a droga, a deixou escondida na calçada e caminhou ao encontro de um grupo para o que parecia ser a negociação para a venda do entorpecente.
Mais tarde, outro grupo de jovens se reuniu para consumir drogas, como se estas fossem atitudes corriqueiras a eles. Para quem assiste às cenas fica difícil acreditar que elas ocorrem em uma rua não distante de uma avenida movimentada e próxima a um dos bairros ditos nobres da cidade, o Residencial Amazonas.
A rua Vicente Richinho abriga duas boates e, de acordo com o que o Comércio apurou, quando em uma delas há shows de MCs, que são cantores de funk, o movimento na via, assim como o consumo de drogas e de bebidas alcóolicas, aumenta. Para a próxima semana estão previstos
Enquanto a reportagem esteve no local, em um dos dias, duas viaturas da polícia militar passaram pela Vicente Richinho e enquanto permaneceram no local, por cerca de dez minutos em cada uma das ocasiões, o som dos carros ficou mudo. Quando a PM deixou o local, voltou a estralar.
Providências
A promessa das autoridades procuradas pela reportagem - Polícia Militar, Civil, Prefeitura, Ministério Público e Conselho Tutelar - é realizar novas ações conjuntas, na tentativa de coibir o “pancadão” na rua do Distrito Industrial (leia mais em texto de apoio).