09 de julho de 2026

Diplomacia para inglês ver


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A diplomacia brasileira, nos últimos dez anos (oito com Celso Amorim e depois com Antônio Patriota), tem se notabilizado por seguir uma linha não muito clara, principalmente quando precisa defender os interesses do Brasil. Aparentemente, as relações exteriores são mais importantes para a defesa dos aliados estrangeiros (e muitos deles são reconhecidamente ditadores ou déspotas) do que de cidadãos brasileiros. O recente episódio envolvendo David Miranda foi um claro exemplo disso. Namorado do jornalista Glenn Greenwald, que divulgou pelo diário inglês The Guardian informações sobre o esquema de espionagem do governo norte-americano, David foi detido no aeroporto de Heathrow, em Londres (Reino Unido), por nove horas, além de ter retidos documentos e dispositivos eletrônicos de armazenamento, como pen-drives.

O assunto mereceu nota indignada de Antônio Patriota e só. Bem diferente da retenção do presidente boliviano Evo Morales na Áustria, quando seu avião foi revistado. Patriota berrou, a presidente Dilma Rousseff exigiu retratação e vários políticos ligados ao governo também opinaram a respeito. Só que todos se esqueceram de dizer que o governo de Evo Morales havia procedido da mesma forma com um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) que transportava o ministro das Relações Exteriores, na Bolívia. O assunto só veio à baila mais tarde. Como se pode ver, a diplomacia brasileira tem servido nos últimos anos para estreitar laços com governos de exceção, como o de Cuba e de países africanos governados despoticamente.

No caso de David Miranda não houve uma ação efetiva do Itamaraty para condenar e exigir explicações sobre a postura da polícia britânica. Afinal, a divulgação dos documentos secretos que escancararam um esquema de espionagem dos Estados Unidos não é justificativa para o Reino Unido agir desta forma, mesmo que exista uma lei que o permita. O foco das revelações sempre foram os EUA. Por isso, o quase silêncio brasileiro diante do fato torna-se mais preocupante, por sua arbitrariedade.

Desta forma, qualquer brasileiro pode ser detido nos países que formam o Reino Unido sem razão aparente. Aliás, ainda está fresca na memória a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes: ele foi abatido na estação de Stockwell, no metrô de Londres, em 22 de julho de 2005. Confundido com um terrorista, o eletricista levou sete tiros na cabeça, disparados pela polícia metropolitana, a Scotland Yard. A trágica história mistura imperícia, negligência, erros e arrogância de uma das polícias mais famosas do mundo, que foi julgada e considerada culpada. A pena: pagamento de multa. Quanto aos policiais envolvidos no caso, nenhuma providência.

Por isso, diante deste antecedente, não se pode admitir que a nossa diplomacia continue agindo tão negligentemente. Já passou da hora do Itamaraty abandonar as práticas dos últimos dez anos e passar a responder ao que dele se espera. Não se pode admitir que cidadãos brasileiros se sintam acuados e ameaçados em razão da ação temerosa daqueles que conduzem a política externa do País.