Numa tarde de verão ensolarado, ela passeava sozinha entre as flores do jardim...’
Não, não. Que diabo de história mais romântica estou escrevendo... Isto já passou, já se foi. Vou partir para outra.
‘Escondi a arma no cós da calça, atrás, por dentro da camisa. Quando aquele cara passar, metido a besta, bonitão, aproveito, cubro a cara com a máscara, encosto a arma no peito dele e levo tudo...’
Não, não. Outra vez? Histórias de crimes assim existem aos montes. E nem precisa escrever. As televisões mostram isto diariamente. Ah, já sei. Vamos lá:
‘Isso. Me dê um beijo. Ótimo. Me dê outro. Agora deixe eu continuar devagarinho...’
Outra tolice. Qualquer novela mostra isto. Fazem até nas praias e ninguém dá bola. Pronto. Achei:
‘Deixa eu dar uma cheirada. Beleza! ’
Lá vou eu de novo. Uma droga. Crack, maconha, cocaína, essas coisas. Todo o mundo vê e ouve diariamente. Chega.
O amigo apareceu:
- O que está escrevendo, um e-mail?
- Estou tentando escrever uma história, mas só dou com os burros n’ água.
- Deixa isso pra lá. Vamos tomar uma cerveja.
- Tudo bem.
Desligou o computador e saíram. No bar em frente tomaram a cerveja. Conversaram. O amigo não aceitou mais uma.
- Não. Esta basta. Passei aqui só para te ver. A gente se encontra outra hora.
Levantaram-se. O amigo pagou a conta. Viram a mão suja e trêmula pedindo uma esmola. O amigo pôs nela uma moeda, sem observá-la, e ele ficou olhando a mão trêmula e a mulher de feições lívidas, vestida em trapos e trôpega.
O amigo se foi e ele continuou fitando a mulher, até vê-la dobrar a esquina.
Voltou para casa. Não ligou o computador. Sentou-se à mesa ao lado, coçou o queixo, pensativo. Pôs a folha de papel à sua frente. Pegou a esferográfica e começou a escrever sem parar, a imagem da mulher diante dele, mão estendida, até dobrar a esquina. Criou personagens e contou-lhe a vida, até vê-la trôpega, esfarrapada, doendo-lhe aquela mão estendida para uma esmola.
Ao terminar, suspirou, sentindo que a perpetuara, embora ela desaparecesse trôpega e esfarrapada, dobrando uma esquina.
Caio Porfirio,
escritor, crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti