O menino fica na ponta dos pés, segurando a madeira do balcão.
- Dona... Dona...
A vendedora procura com os olhos e não localiza mãe ou pai. Não vê adultos nas proximidades.
- Dona... Dona...
A insistência derruba a indiferença.
- Posso te ajudar?
- Tem caderno de desenho?
- Tem.
- Eu quero um.
- De quantas folhas?
- De muitas.
A balconista se afasta, volta, inclina-se um pouco, entrega ao menino um caderno de cinquenta páginas. O garoto não tem pressa. Vai passando as folhas com atenção. De repente, devolve o caderno.
- Esse não tem desenho.
- Uai, caderno de desenho não tem desenho mesmo. Caderno de desenho é pro aluno desenhar. Não sabia!?
- Sabe, dona, eu queria é caderno pra pintar.
- Isso não tem não. Pra pintar, só tem revista.
- Então eu quero uma.
- Não é aqui não. Revista é lá na frente, naquele corredor lá.
O menino vira as costas e caminha devagar na direção indicada pelo fura-bolo da mulher. Depara, então, com uma variedade enorme de revistas e jornais. Fica um tempão, olhando as gôndolas, indeciso. Sua salvação é uma moça de uniforme vermelho, repondo mercadorias nas prateleiras.
- Dona... Dona...
- Oi, o que que você quer?
- A senhora me ajuda?
- Ajudo. O que que você quer?
- Eu quero uma revista pra pintar.
- Vem cá... Aqui, olha. Agora você escolhe.
O menino passeia os olhos por páginas de três ou quatro revistas, faz sua escolha. Volta à moça de vermelho que agora está no alto de uma escadinha.
- Dona... Dona...
- Oi, achou?
- Achei. Vou levar essa aqui. Ela tem um arco-íris. Agora eu quero é lápis de cor.
- Vira nesse corredor e vai olhando que você acha.
O menino percorre o caminho indicado, os olhos atentos. E eles ficam arregalados diante das caixas de lápis. Faz a escolha.
- Vou levar essa grandona, vou pôr as doze cores no arco-íris.
Entra na pequena fila, chega logo ao caixa, entrega revista e lápis.
- Quanto custa?
Não revela qualquer emoção diante do valor comunicado.
- Espera aí que eu vou pedir dinheiro pra minha mãe.
Sem qualquer pressa, caminha para fora da loja, anda até à esquina. Fala baixinho ao ouvido da mulher.
- Mãe, dá dinheiro pra mim comprar lápis colorido e uma revista? Custa só...
- Tá ficando doido, moleque? Some daqui, fica longe... Senta lá no banco... Vai, anda...
O menino se afasta de cabeça baixa, atravessa a rua, senta em banco de cimento, lá na praça enorme. Olha para o céu, conversa sozinho.
- Se a mãe desse o lápis, eu podia pintar aquela nuvem de preto... Aí chovia outra vez... Aparecia o arco-íris...
Ali perto, uma mulher sentada no cimento nem percebe que atrapalha o trânsito de pedestres. Simplesmente estende a mão e suplica.
- Uma ajuda... uma esmolinha pelo amor de Deus..
Alheio, o sol queima homens indiferentes que atravessam a praça.
Luiz Cruz de Oliveira,
professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras