Conta o folclore do futebol que o técnico Vicente Feola, campeão do mundo com a seleção brasileira em 1958, instruía o fenomenal Garrincha antes de um jogo: “Você entra no campo, se desloca para a direita, recebe a bola, evita o volante, dribla o lateral, passa pelo beque, vai à linha de fundo e cruza para Vavá fazer o gol... Entendeu?” Garrincha, então, teria respondido com sua reconhecida simplicidade: “Entendi tudo... Mas o senhor já combinou com os jogadores adversários?” Esta pequena história serve para ilustrar que o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB), talvez em razão de sua falta de experiência política, agiu em Franca nesta semana como Vicente Feola em 1958. Resolveu, em sua cabeça, lançar a candidatura a deputado federal do ex-prefeito Sidnei Rocha pelo partido que preside sem que pelo menos combinasse com o seu antecessor. E deu no que deu: Sidnei Rocha não apenas recusou como também acusou o partido de ser “frouxo”. E fim de papo.
O mal estar geral acabou expondo a inexperiência do atual prefeito. Não é a primeira vez que Alexandre Ferreira age sem combinar com mais ninguém e acaba dando com os burros n’água. Nem Garrincha, que era um gênio do futebol com a bola nos pés, foi capaz de antecipar jogadas num esporte onde o imponderável é elemento principal. Na política, é a mesma coisa. O prefeito foi ingênuo ao imaginar que seu antecessor ficaria lisonjeado com o lançamento de seu nome, que seria capaz ainda de alavancar de forma irreversível mais uma reeleição de Roberto Engler. Porém, Sidnei Rocha já vem demonstrando há um bom tempo que está extremamente magoado com o partido. Dono de uma popularidade recorde — deixou a Prefeitura com índices de 80% de aprovação —, o ex-prefeito conseguiu eleger como sucessor um candidato sem qualquer experiência eleitoral ou expressão política somente em razão de sua aceitação pessoal junto ao eleitor francano, sem que para isso o PSDB local mexesse uma palha qualquer.
A ingenuidade de Ferreira foi inversamente proporcional à sua capacidade de fazer uma leitura política do momento atual do partido. O que vai acontecer a partir de agora, depois desta manifestação do ex-prefeito, é uma incógnita. Afinal, Sidnei Rocha colocou-se como carta fora do baralho, mas caso seja convocado pela direção estadual tucana — e aí até o governador Geraldo Alckmin pode interferir — com certeza poderá capitular. O que se percebe, porém, é que Roberto Engler pode ter sua parcela de responsabilidade na iniciativa do prefeito e presidente do diretório municipal da agremiação. Pois sabe-se que em razão da sua popularidade, Sidnei Rocha poderia tornar mais difícil sua reeleição caso resolva sair candidato a deputado estadual. Se realmente inspirou a atitude desastrada de Alexandre Ferreira, Engler não levou em consideração a imprevisibilidade das ações daquele que, dentro do diretório, é seu oponente. Sidnei Rocha faz o que quer, como quer e quando quer. E isso ninguém é capaz de mudar.
Agora, o PSDB local vê-se enredado em uma trama que pode trazer um desgaste desnecessário, ainda mais que resta mais de um ano para a realização do pleito de 2014. Ainda não se tem ideia de como é que o partido vai sair desta embrulhada, que poderia muito bem ser evitada com uma simples conversa entre Alexandre Ferreira e Sidnei Rocha.