Nocomeço dos anos 1990, comprei DVD da banda Kiss, retorno do grupo com integrantes originais. Fui pesquisar e encontrei um sujeito que tinha o material bruto, antes da edição final. Eram dois ou três DVDs com horas de duração, mostrando os erros, as paradas, as retomadas, regravações, etc. Comprei.
Quando recebi os discos, corri a assistir e realmente é inusitado. Quem é fã da banda se lambuza! Mas... chega uma hora em que enche o saco. Paradas, espera para regular uma luz, mudança de câmeras, gente andando pra lá e pra cá. Não é uma história sendo contada, mas um ajuntamento de - para ficar na moda - narrativas plurais. Sem alguém para ordenar aquilo tudo numa história é algo insuportavelmente chato, que a gente vai adiantando no controle remoto.
Isso nos leva ao grande dilema dos tempos plurais: precisamos das pessoas que botam ordem nas narrativas, mas cansamos delas. Elas escolhem os melhores ângulos e interpretações do ponto de vista delas, e assim nos mostram não aquele show bruto, mas o show montado por elas. Muita gente está cansada disso, se sente manipulada, sonegada de parte da realidade.
Isso me ocorre no momento em que discutimos a aparição de ‘nova narrativa’, especialmente com o surgimento do grupo Mídia Ninja e sua ‘pluralidade narrativa’. O Ninja significa ‘Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação’ e o que eles fazem é espalhar em meio às manifestações, por exemplo, dezenas de indivíduos com equipamentos de filmagem que capturam a ação de ângulos diversos e, aparentemente sem edição, colocam no ar pela internet. Assim é possível assistir cenas que a televisão não mostra. Essas imagens brutas iriam ao ar ao mesmo tempo e caberia ao telespectador montar a narrativa que lhe interessasse. Ou ainda, é como os DVDs com as imagens brutas do show do Kiss, rico em conteúdo, mas sem ritmo.
Tem gente que aposta que esse é o futuro da imprensa. Vou esperar para ver. Acho que ainda precisamos de alguém que nos conduza pela narrativa.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista