As manifestações de protesto contra os gastos para a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, em junho passado, já deixaram uma marca: cresce o número de brasileiros que se mostram insatisfeitos e, mais do que isso, desinteressados com o evento. Anunciada com pompa e a promessa de que os cofres públicos não seriam sangrados para a garantia da disputa, a menos de um ano de seu início já se sabe que não será assim. A maioria dos estádios que abrigarão os jogos foi reformada ou construída graças à liberação de verbas dos governos federal, estaduais e municipais. E, o que é pior, praticamente nenhum orçamento foi cumprido à risca, sempre havendo aditamentos que aumentaram os preços iniciais em até o dobro, como aconteceu com o estádio Mané Garrincha, em Brasília. Este, inclusive, corre o risco de se tornar um elefante branco numa cidade onde não há grandes equipes ou eventos capazes de capitalizar o espaço. As obras no estádio foram financiadas com verbas do governo do Distrito Federal.
Na próxima semana a empresa de informação e pesquisa Nielsen vai divulgar um relatório sobre a relação dos consumidores com a Copa das Confederações e os patrocinadores do evento. Os resultados são alarmantes para as empresas que pretendem trabalhar sua comunicação para o Mundial de 2014. Além disso, já permitem que se faça uma leitura das expectativas para com a Copa de 2014. A pesquisa foi realizada em julho, após o término do torneio e com o Brasil campeão, nas seis cidades-sedes da Copa das Confederações (Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Salvador) e também na cidade de São Paulo, a maior do País. Ao todo foram ouvidas 1.420 pessoas, que falaram sobre o apoio ao evento e às marcas, os hábitos durante a realização dos jogos e do que se lembravam quanto às ações das empresas ligadas ao torneio.Na comparação com setembro de 2012, quando a mesma pesquisa foi feita, o brasileiro ficou muito mais desinteressado em relação ao evento e, pior, mais insatisfeito. Em 2012, 71% das pessoas apoiavam a realização da Copa das Confederações. Após o torneio, o índice caiu para 45%. Como se pode ver, no quesito apoio popular, a Copa do Mundo do ano que vem já subiu no telhado. Diante das dificuldades para que as chamadas obras de mobilidade urbana saiam do papel -- incluindo-se aí modernização dos transportes, sendo que o principal deles (o trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro) só deverá ser licitado depois do mundial --, o brasileiro já começa a questionar a questão da oportunidade. A pergunta que mais se tem feito é se o Brasil vai mesmo ganhar com a realização do evento como se proclamava antes das manifestações de protestos. Pelo que se percebe até agora, só a população é que não ganhou.
A necessidade que o País apresenta em termos de serviços essenciais, como Educação e Saúde, revela-se sensivelmente mais importante do que realizar um mundial no Brasil. Por isso é que o desinteresse para com as marcas patrocinadoras na Copa das Confederações tem estreita relação com o apoio à Copa do Mundo. As mazelas brasileiras ainda não estão devidamente resolvidas para que o ufanismo do ‘Brasil Grande’ e ‘Pátria de Chuteiras’ tome conta da maior parte da população.