Diretor executivo do Comércio da Franca relata como foi a decisão de mudar e quais as vantagens e as implicações de uma revolução como essa, para um jornal que se aproxima de seu centenário
Bissemanal, diário, tabloide, standard, preto e branco, colorido... Ao longo de seus 98 anos, o Comércio se reinventou diversas vezes e de inúmeras maneiras. Hoje ele passa por uma de suas mudanças mais profundas ao reformular completamente sua concepção gráfica. De acordo com o diretor executivo do GCN, Corrêa Neves Júnior, a intervenção se fez necessária para que o jornal pudesse acompanhar a nova dinâmica de um público que hoje preza pela agilidade e interatividade na procura por conteúdos informativos. ‘O tempo de leitura hoje é diferente, os recursos tecnológicos, também, a demanda dos anunciantes, idem, e o jornal precisava de uma roupagem nova para se adaptar a este momento’, disse ele, em entrevista especial na qual conta um pouco sobre esse processo de mudança. Nas linhas a seguir, o leitor vai conhecer mais dessa restruturação que reuniu profissionais da Espanha, Argentina e Brasil ao longo dos últimos 18 meses, contabilizando ainda um investimento que ultrapassa os R$ 500 mil.
Por quantas vezes o Comércio já passou por uma restruturação significativa?
Nessa trajetória de 98 anos, com distintas famílias controlando o jornal ao longo do tempo, fica muito difícil precisar. Afinal, trata-se de uma empresa com quase um século de história. Mas, algumas marcas são bem visíveis. A primeira foi nos anos 50, quando o Comércio deixou de ser bissemanal e passou a ser diário. Foi uma mudança importantíssima que deu outra dimensão ao jornal. Uma década mais tarde, durante um período relativamente curto, o Comércio mudou de formato, o que é sempre uma transformação aguda. Foram anos em que o jornal circulou em formato tablóide. Depois, nos anos 70, meu pai (Corrêa Neves, jornalista) comprou o Comércio e investiu aqui tudo o que ele tinha. Trouxe para Franca uma das primeiras impressoras rotativas de grande porte, uma novidade no interior, muito moderna para a época. Meu pai inovou também ao contratar uma designer de São Paulo, uma profissional com anos de experiência em grandes redações, para fazer pela primeira vez um projeto visual pensado, planejado, para o Comércio. Foi a primeira vez que se olhou para a questão visual do jornal com profundidade e profissionalismo. Por fim, há uns 15 anos, fiz o projeto gráfico que resiste até hoje. É claro que nesta década e meia inúmeras modificações foram implementadas ao projeto que desenvolvi. Seções foram criadas, outras extintas, formatos redefinidos, enfim, muito “botox” foi aplicado no projeto que fiz nos anos 90 para modernizá-lo e atualizá-lo. Mas é um modelo esgotado. Passava da hora de uma mudança mais profunda.
O que motivou a investir nessa grande reforma gráfica?
Vivemos tempos de mudanças radicais, de transformações profundas na maneira como as pessoas se relacionam, participam, se informam, discutem. O tempo de leitura hoje é diferente, os recursos tecnológicos, também, a demanda dos anunciantes, idem, e o jornal precisava de uma roupagem nova para se adaptar a este momento. Foram muitas discussões internas e chegamos a pensar em desenvolver um novo projeto gráfico com nossa equipe, mas acabamos desistindo. Concluímos que apesar da competência dos nossos designers e editores, era preciso um “olhar de fora” para alcançar um resultado de excelência. Sabíamos que o projeto do “novo” Comércio precisava contemplar um jornal muito bonito, prático e útil, que atendesse as demandas dos nossos leitores de hoje. Qualquer produto que não se adapta morre e com o jornal não é diferente. Mudar é sempre preciso. Assim, fomos ao mercado em busca de opções.
Por que você escolheu a Cases i Associats para desenvolver o novo projeto gráfico?
Há tempos acompanhava o trabalho do pessoal da Cases (a empresa responsável pelo projeto gráfico do Comércio tem sede em Barcelona, na Espanha), um dos principais estúdios de design de jornais do mundo, e que cuidou das últimas reformulações de pesos-pesados do jornalismo brasileiro, como O Estado de São Paulo e O Globo. Conseguimos contratá-los e o resultado é esse que vocês têm hoje em mãos.
Vivemos uma crise no setor editorial, onde vemos demissões e fechamento de publicações, como aconteceu com a editora Abril recentemente. Esse momento não convidaria a investimentos e grandes mudanças para essas empresas em dificuldade. O Comércio, pelo que tudo indica, vai na contramão desse cenário...
Sim, o Comércio realmente vai na contramão disso tudo. É claro que ainda há uma zona de cinza muito grande e que ninguém sabe exatamente como vão se processar todas as transformações que certamente afetarão o setor de mídia, mas o fato é que quando examinamos os números do mercado de comunicação no Brasil, não se vê queda na circulação dos jornais. Pelo contrário, ou ela está estável ou tem um leve crescimento. Nunca tanta gente leu tantos jornais no país. A mesma realidade se aplica a Franca. No nosso caso, chegamos a 93% dos leitores de jornal. Praticamente a totalidades das classes A e B, mais da metade da classe C e uma parcela crescente das classes D e E consomem o Comércio diariamente. São números impressionantes, que reforçam a vitalidade do impresso. Além disso, tem a internet, plataforma na qual investimos há anos com seriedade. Fico espantado todos os dias com os relatórios de audiência. Temos, no portal GCN, uma média de 25 mil acessos únicos diários, com picos de até 40 mil pessoas diferentes nos acessando. São mais de 100 mil visualizações diárias de páginas publicadas pelo portal. É um número expressivo de pessoas, que soma ao conjunto que leu a versão impressa.
Qual foi o valor investido neste novo projeto?
Mais de R$ 500 mil, além de muita dor de cabeça. O número é impreciso porque, apesar de mais de um ano de desenvolvimento, o projeto ainda não acabou. Foram múltiplas equipes envolvidas. A Cases, por exemplo, cuidou do desenho do jornal. Depois, tem a Soft-Data, uma empresa argentina que se ocupa dos programas de computador que tornam tudo isso possível. Tem ainda a parte braçal, de transpor os modelos desenhados e projetados para os sistemas informatizados, que foi feito, com muita garra, pela nossa equipe. Houve ainda nosso pessoal de Marketing criando a campanha de lançamento, ajustes na impressora para extrair o máximo do novo projeto. Enfim, tudo Isso demanda tempo, dinheiro e muita, muita paciência.
O que o Comércio traz de novidade?
Várias seções foram criadas. Algumas pensadas por nós, outras construídas e debatidas com a Cases... A Tô Puto é exemplo de uma ideia nossa que eu gosto muito. Ali serão concentradas as reclamações das pessoas em relação a serviços públicos e privados. É um novo espaço que tem tudo para provocar forte impacto. Os espaços para o leitor foram muito ampliados. O novo Roteiro da Semana, publicado aos sábados, ficou lindíssimo. O Nossas Letras, caderno literário, está surpreendente. Este último foi um caderno dificílimo de ser desenhado, até porque ele é muito mais texto do que imagem, mas veio com uma proposta muito radical, inovadora. O Caderno de Domingo sofreu uma mudança profunda e agora se chama DOM.. Incluímos na edição diária uma página com previsão do tempo e informações úteis.
No novo Comércio, foram reservados espaços maiores para o nosso material fotográfico, que é de grande qualidade. Temos construído uma tradição na fotografia brasileira, ganhando, inclusive, um prêmio Esso em 2007, que é a maior consagração possível para um jornalista neste país. O leitor vai perceber isso: em cada página temos um grande elemento gráfico, uma grande foto puxando a leitura e guiando o leitor.
E, dentre tantas mudanças, qual destacaria como a mais necessária, como algo pelo qual o Comércio esperava há muito?
Há uma grande surpresa na capa. Parece simples, mas exigiu grandes debates e muitos estudos. Aumentamos o tamanho das letras do nome Comércio, para institucionalizar o que já é uma realidade. As pessoas, quando chegam na banca ou se referem ao seu jornal, pedem simplesmente “um Comércio”. Queríamos valorizar essa proximidade, essa forma carinhosa de tratamento. Claro, deixando expresso, logo abaixo, de onde somos. O “da Franca” continua ali, porque é nossa terra, nossa origem, um grande orgulho. Mas o Comércio fica agora gigante na capa. O resultado final é muito bonito. Espero que os leitores gostem.