Famílias vizinhas. Minhas referências e lembranças da querida amiga começam quando ela era bem pequena
Alguns anos mais nova - aquele tanto que faz diferença na infância e encolhe à medida que a vida passa - posso vê-la sentadinha no portão da entrada da casa no cruzamento da Saldanha Marinho com a Couto Magalhães, Pracinha do Café, olhando a molecada preparar os carrinhos de rolemã. Posso crer que foi lá que ela rezou por mim pela primeira vez, quando me viu de bruços sobre a prancha de madeira nos preparativos para descer a ladeira até o buraco do bueiro, onde terminava o asfalto. Ela se casou, eu me casei. Ela teve filhos, tive o dobro. Um dia nos reencontramos. E, entre a tarde do capotamento na tampa do bueiro - do qual me salvei por causa das suas orações - e a tarde na qual ela me vendeu o colar de pérolas que daria de presente à moça que se casaria com meu filho nos dias seguintes, alguns anos se passaram. Porém, depois do reencontro, vivemos histórias maravilhosas. Mil e uma histórias.
Uma razão para tanto querer bem? Muitas. O humor, para enxergar o avesso de tudo. A sensibilidade, para compartilhar histórias. O respeito à propriedade alheia: embora vivêssemos em mútua e profunda admiração, soubemos conservar os limites do que era dela e do que era meu. Aliado ao exercício de muito respeito, preservarmos nossos canteiros particulares de criatividade. E a admiração só cresceu. Ela jamais usou uma expressão minha, sem que me desse o crédito. E quem era eu para imitá-la? Conversávamos sobre religião, ela - aquela autoridade e eu, coisinha de nada. Ela em constante aperfeiçoamento através da caridade, da tolerância, da paciência, da consideração e do amor pelo próximo, eu do lado, tentando compreender o básico arroz com feijão, apimentado pelo mau gênio italiano que herdei.
E fomos amigas. Como fomos! Quando o bicho maldito a pegou, não acreditei: ela haveria de superar; ela haveria de se curar; ela haveria de se livrar dele. Fiz mil perguntas desde a clássica por que, até a particular por que ela? Não tive respostas. Sem críticas, garantiu que um dia terei, mas que preciso amansar meu coração antes.
Certa noite, com voz fraca de tanto sofrimento, ela me ligou. Queria que eu lembrasse qual história ela havia me contado na tarde em que a levava para tomar passe, no centro espírita que frequentava. Era história tão engraçada que, quando chegou no final, perdemos o fôlego. Lembra? ela perguntava. Lembrei até que parei o carro, que não conseguia respirar. Que ela ficou roxa! Acredito que pensamos ao mesmo tempo na possibilidade de, literalmente, morrermos de rir. Mas não consegui me lembrar. E olha que fiz esforço. Ela partiu, sem que nos lembrássemos.
Noite dessas, conversava com outra amiga. Lembrávamos mitos, lendas e lendas urbanas do folclore local. E ela contou de dama paulistana que ambas conhecíamos, tornada francana por casamento. Chiquíssima, cheia de triques e chiquês desconhecidos. Por aqui, pelo menos.
É lendária a noite em que recebeu pessoal de São Paulo e pôs funcionários desacostumados dentro de uniformes e aventais para servir aperitivos e, depois, à mesa do jantar. Recém-casada, queria mostrar eficiência e intimidade com o novo status. A hora de servir o prato principal - era leitoa! - se aproximava. Esgueirou-se para a cozinha, chamou de lado a copeira e pediu que, pelo amor de Deus! não se esquecesse do detalhe chique da maçã para composição do assado. Estava empenhadíssima em impressionar os convidados. Não teve trombeta para anunciar. Quando a moça, enfatiotada no desconfortável uniforme e de babadinhos na cabeça entrou, estava com os olhos arregalados, carregava a banguela leitoa na bandeja de prata e equilibrava nos dentes, lustrosa e vermelha maçã!
Era a história da qual não conseguimos nos lembrar. Esta semana, disseram-me, estamos comemorando a Semana do Grande Amigo. Quem pode garantir que não há dedinho nela na coincidência de recuperar agorinha a história perdida, ou que ela não deu um jeito de me provar existir certo tipo de continuidade no qual jamais acreditei?
MEXIDO
Em Minas Gerais é o nome de comida do jantar, feita com sobras do que foi servido no almoço. Cebola, alho, óleo: bota pra fritar. Juntar tomate cortadinho. Esperar. Cortar miudinho as sobras de carne - de frango, de porco, de vaca, linguiça - o que tiver à mão. Fundamental: pedacinhos de verdes (abobrinha, jiló, couve, brócolis, ervilha etc.) ou não verdes (moranga, abóbora, couve-flor etc.). Acrescentar ovo ligeiramente batido. Mexer. Colocar feijão. Mexer. Colocar arroz. Continuar mexendo. Cuidado para não espandongar o alimento: tudo o que está na panela deve manter sua integridade e ser facilmente reconhecido. Bastante salsinha e cebolinha. Arear com farinha de mandioca. E com queijo (mineiro, sô!) ralado. Servir com o vidro de pimenta do lado. Tem que ser bão pra preparar esse mexido. Tem que ser melhor, pra digerir esse outro aqui:
MEXIDO 2
“Paulo Bernardo, Ministro das Comunicações é marido da senadora Gleisi Hoffmann, Chefe da Casa Civil. Gilberto Carvalho, Secretário Geral da Presidência, é irmão de Miriam Belchior, Ministra do Planejamento. Míriam foi casada com Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, que morreu assassinado. Elizabete Sato, delegada escalada para investigar o processo sobre o assassinato de Celso Daniel, é tia de Marcelo Sato, marido de Lurian, filha de Luiz Inácio Lula da Silva. (A dra. Elizabeth foi quem concluiu que a morte de Celso Daniel se deveu a ‘crime comum’, sem motivação política.) Marcelo Sato é dono de empresa que presta serviço ao Besc - Banco de Santa Catarina, que tem como diretor Jorge Lorenzetti, churrasqueiro oficial do ex-presidente Lula e petista envolvido no escândalo da compra de dossiês. O marido da senadora Ideli Salvatti é presidente do Besc”. (Internet)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br