20 de março de 2026

Arte? Sim, arte.


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No lado direito de quem desce o corredor central do Cemitério da Saudade, em espaço rente ao muro externo, havia o cemitério judeu de Franca

Cercado por grades de ferro trabalhado, mais por enfeite que por separação, os túmulos tinham estrelas de David, ao invés de cruzes. Nos anos 50 a maioria dos judeus que aportaram em Franca fugindo da perseguição nazista na Europa, havia se mudado para outros centros maiores. Para desocupar espaço, embora as famílias tivessem comprado os terrenos para seus mortos, foi publicado pela prefeitura municipal da época, em edição católica, o edital de desapropriação dos espaços ocupados pelos túmulos.

Nenhum descendente das famílias judias apareceu para reclamar – o jornal tinha tiragem pequena, esporádica e circulava apenas entre poucos assinantes – máquinas da prefeitura passaram por cima dos túmulos levando ossos e a memória daquele povo enterrado ali. Até algum tempo ainda se achava um ou outro túmulo identificado pela Estrela de Davi: raríssimos, porém. Hoje não sei mais. A passagem por Franca daqueles seres que a escolheram como moradia nos distantes anos foi banida e jogada fora. Alguns nomes permanecem vivos como do dr. Abrahão Brickmann e do fabricante de móveis Borízio Steinberg. O primeiro, obstetra, ajudou na chegada ao mundo da geração de francanos que têm idade em torno de sessenta anos. Borízio morou na Casa Verde, onde se construiu o prédio de apartamentos Franca do Imperador. Pinturas em tela, que retratam cenas antigas da cidade – Cariolato, Luiz e Pedro Schirato – perpetuaram o casarão daquela esquina.

Tais lembranças assomaram quando tive notícias de nova destruição da memória de Franca, no mesmo cemitério, chamada de limpeza para dar espaço aos que preparam definitiva morada, própria e da família. Na entrada do campo santo francano encontravam-se túmulos do século XX e até do final do XIX. Estátuas esculpidas em mármore de Carrara por grandes artistas eram a derradeira homenagem aos familiares enterrados naqueles mausoléus. Pois quando o vendaval passou, imagens esculpidas em mármore foram arrancadas de roldão e amontoadas ao lado da capelinha do cemitério. Se os compradores dos lotes – embora não responsáveis pelas leis e condições da compra – concordaram com a devastação, não sei dizer. Mas para todos – que direta ou indiretamente – permitiram a aniquilação, tomo a liberdade de sugerir alguns endereços para que se certifiquem da barbárie que cometeram: em São Paulo, Cemitério do Araçá e o da Consolação; no Rio, o São João Batista. Em Paris, o Père Lachaise. (Se não der pra ir pessoalmente, o passeio pela internet é quase gratuito.)

Credo! Passeio em cemitério? Sim, passeio em cemitério. No Père Lachaise, por exemplo, estão os túmulos de Alan Kardec – diferente dos outros, que chama a atenção tanto pelo aspecto rústico, quanto pela quantidade de pessoas que o visitam. Edith Piaf, La Fontaine, Chopin, Oscar Wilde, os amantes Abelardo e Heloísa, Jim Morrison, Yves Montand e Simone Signoret.

Não há culpados, mas indiferentes em diversos graus. Mostraram-se indiferentes e insensíveis funcionários e prefeito que ordenou a devastação do cemitério judeu em Franca no passado. Mostraram-se indiferentes os mandatários da recente demolição dos túmulos e das estátuas do cemitério. Mostramo-nos cada um de nós, indiferentes à memória e referências históricas de nossa cidade, quando cruzamos os braços e fingimos que isso não é com a gente. É, sim.

LISTA
Dez mais famosos cemitérios do mundo: o Père Lachaise - Paris; Cemitério Nacional de Arlington - Arlington; La Recoleta - Buenos Aires; Trinity Churchyard - Nova York; Cemitério Boot Hill - Arizona; Hollywood Forever - Hollywood ; Mt. Auburn - Cambridge, EUA; Cemitério Old Jewish - Praga; San Michele - Veneza; St. Louis - Nova Orleans; Cemitério da Consolação - São Paulo. Por minha conta, incluo o Cemitério Monumental, em Milão.

ARTE
Preconceito e superstição impedem a apreciação da arte tumular, encontrada nos cemitérios e traduzida em trabalhos esculpidos em granito, mármore e bronze. Verdadeiro acervo ‘escultórico e arquitetônico a céu aberto, guarda restos mortais de personalidades imortais de nossa história e cultura. A simbologia - de saudades, amor, tristeza, nobreza, respeito, inocência, sofrimento, dor, reflexão e arrependimento - dá sentido às vidas que se foram. No cemitério. arte tumular é uma forma de cultura preservada no silêncio, que não deverá ser temida e sim contemplada’. (Internet)

CURIOSIDADES
No tour pelo Père Lachaise, informam que Yves Montand nem francês era. Feio, era dono de carisma e charme tão grandes que, ao se naturalizar, passou a ser o protótipo do homem francês. Jim Morrison, cantor, compositor e poeta norte-americano, ídolo do rock, morreu em Paris e ficou por lá. Abelardo e Heloísa - personagens de célebre caso de amor - finalmente juntos em túmulo coberto de flores vermelhas deixadas pelas pessoas, para celebrar e pedir ajuda em casos de amores complicados. Nas pedras do jazigo do irlandês Oscar Wilde, que deve hoje estar protegido por vidros, houve erosão provocada por batom dos beijos das admiradoras deixados para reverenciá-lo. Passeio histórico e cultural.

SUGESTÃO
Caso não tenha ainda passado trator de demolição ou esteira de limpeza sobre anjos e anjinhos, flores, folhas e frutas, cestas, guirlandas, ampulhetas, cruzes, vasos, escadas, globos de mármore - peças de arte tumular que estavam encostados nas paredes e espalhados pelas canaletas ao redor da capelinha do Cemitério da Saudade, sugiro que sejam usados como enfeites em gramados dos novos cemitérios, em nichos de praças, em praças de logradouros públicos. Haverá alguém com critério e bom gosto para usar todo esse acervo cultural.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br