No último sábado, 27 de julho, lendo neste espaço literário o texto da amiga Sonia Machiavelli, fui surpreendida pela memória involuntária, que me remeteu ao dia de minha chegada a esta cidade, também num julho de frio intenso. Referindo-se a imagens postadas no Facebook por internautas do grupo “Apaixonados por Franca” (uma delas, motivo de capa do tabloide), Sonia dizia: “Rafael Lourenço de Camargo e Carlos Pereira uniram-se no registro matinal de diversos espaços francanos envoltos por chuva fina, neblina espessa e graus em descenso”. À leitura dessa frase, dois sentidos da palavra tempo foram em mim evocados, simultaneamente, em movimento e condições espaciais e emocionais.
Naquele dia de julho, o meu primeiro na cidade, senti que ambos, o tempo weather e o tempo time, me ligariam indelevelmente a esta Franca dos sete véus. A beleza de sua dança, coreografada sob nuvens (foi assim que me recebeu, ocultando-se e exibindo-se entre camadas vaporosas; diluindo-se e adensando-se, encobrindo-se e desnudando-se, como a me convidar para contato mais íntimo), despertou em mim o desejo de conhecê-la sem reservas, aberta em luz e cores e contornos. Naquele dia, soube que minhas raízes se fixariam aqui, neste local onde os julhos (quiçá também os junhos, como sabê-lo senão provando, experimentando, ano após ano, seus sumos e sabores e perfumes?) respiram ares europeus (ou ares serranos, como os da Mantiqueira, em um Brasil hibernal): frios e aconchegantes, que nos despertam para o calor de ternos abraços; incógnitos e provocantes, que nos envolvem em movimentos de amor e dança; velados e insinuantes, que nos mergulham na sensualidade dos sete véus e na fluida versatilidade da palavra “tempo”, assim definida por Machado de Assis, em Esaú e Jacó: “o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo”.
Por enquanto, tento bordar no meu tempo francano flores, pássaros, castelos... E viver essas bordaduras “em contínua vertigem apaixonada”, capturando momentos de pura poesia nos espaços “envoltos por chuva fina, neblina espessa e graus em descenso”, e nos ipês, sibipirunas, quaresmeiras, acácias... em floração aberta ao azul e à luz -”registros [...] estéticos, líricos ou apenas curiosos” que vou deixando (egoisticamente, bem sei) na memória da alma, a serem um dia evocados, quem sabe, por uma cor, um odor, uma névoa, ou uma boa escrita, porque, sim, amiga, “O que somos sem nossas lembranças, reminiscências, saudades, nostalgias?”