08 de julho de 2026

Revelação


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Ela, Maria Abadia, de apelido Badiinha. Ele, Alfredo. Moravam em Uberlândia. Conheceram-se na praça da Igreja, provavelmente. Talvez durante o footing. Quiçá na Confeitaria Colombo. Ela, mineira da gema. Ele, nascido nos Estados Unidos, quando os pais se mudaram do Líbano para o Brasil, em busca de melhores condições de vida. Ela, irmã de minha avó materna, cinco anos apenas mais velha que mamãe, mas tia: e assim era chamada pelos sobrinhos, quase de sua própria idade. Vinha a Franca com freqüência para visitar a família, sempre acompanhada da irmã coetânea. Ela, tia Laura, minha mãe e vovó ficavam conversando noite adentro na varanda de casa, depois que os sobrinhos-netos eram despachados para o quarto. Davam risadas com as relembranças, trocavam confidências, contavam casos dos familiares. Certa noite, do quarto entreouvimos seu choro realçado pelo silêncio das outras. Rádio ligado, Agostinho dos Santos contava a trágica história de Esmeralda - de Filadelfo Nunes e Fernando Barretos - cuja letra descrevia a desventura da moça que se casava ‘com outro que não era seu bem’. Tia Badiinha pregava - éramos pré-adolescentes românticas - que o amor era algo que brotava entre homem e mulher ao longo do tempo de casamento, não era condição necessária para justificar qualquer união. Que a gente casasse com moço ‘bom’, que o amor viria depois. Naquela noite, ao ouvi-la chorar emocionada por causa da música, pude perceber que ela não acreditava tanto assim no seu discurso. Ou que, se acreditava, naquele momento alguém do seu passado era fantasma presente e materializado na varanda do quintal daquela casa tão distante de Uberlândia. Anos depois, ao ver a foto e a expressão do seu rosto no dia do seu casamento, tive certeza que, no caso dela, o amor veio muito depois. Jamais me arriscaria, decidi: e se eu não tivesse tanta sorte?

(Lúcia H. M. Brigagão)