Bem-humorado e sempre sorrindo, o deputado federal Francisco Rodrigues de Alencar Filho, o Chico Alencar, 63, faz parecer que ser político é uma coisa fácil. Mas, como deputado federal pelo Psol (Partido Socialismo e Liberdade), um partido de oposição, as coisas não costumam ser simples. “Com uma bancada de apenas três deputados [os outros são Ivan Valente e Jean Wyllys], é desesperador você dar conta de Código Florestal, Código da Mineração, Lei dos Portos, reforma política, tributária, Lei da Copa. É um sufoco”, afirma.
Em Franca na semana passada (para uma palestra, o que ele faz uma vez por semana), o parlamentar concedeu uma entrevista ao Comércio em uma sala de aula no Ipra (Instituto Práxis), na Estação. O ambiente não era estranho a ele. Formado em História pela UFF (Universidade Federal Fluminense), deu aulas por vários anos para crianças na rede estadual e está licenciado da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) para cumprir seu terceiro mandato como deputado federal.
Mesmo afirmando que o que sabe “fazer na vida é dar aulas”, Chico dedicou sua vida aos movimentos sociais. Quando era adolescente, foi combatente da ditadura e acabou preso aos 16 anos. Ele vê com bons olhos os protestos que irromperam em todo o país em junho. “Eles recuperaram no brasileiro a ideia dos direitos e a vontade de protestar coletivamente.”
Alencar, que foi casado duas vezes, revela que seus quatro filhos o consideram um “apaixonado pela política”. Ele já foi vereador entre 1988 e 1996 e deputado estadual de 1999 a 2002, ambos os mandatos pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Segundo ele, após diferenças partidárias com a sigla, migrou para o Psol, em 2005. Apesar de rumores, ele negou que será o candidato à Presidência pelo partido em 2014.
Mas Chico não é só política. Declarou que suas melhores obras são seus filhos. Ele adora ler, contar “causos” e escrever. Autor prolífico, conta com 26 títulos publicados. Oito deles são infanto-juvenis, abordando temas complexos como reforma agrária e democracia. “Escrever para criança é mais difícil que para adulto, mas estimulante. Tem que usar linguagem que a criança entenda, mas que não seja pueril.”
Comércio da Franca - O senhor tem um histórico de participação em movimentos sociais. Como surgiu a vontade de se engajar?
Chico Alencar - Antes de entrar para o ensino médio, já alimentava a minha consciência política. Com 14 anos, participava da JEC (Juventude Estudantil Católica). Aos 16 anos, sofri a minha primeira prisão por causa de uma passeata contra a ditadura. Foi uma prisão rápida, entrei à tarde de um dia e saí na manhã seguinte. Foi uma experiência interessante e breve. Depois fiz o científico num colégio público ligado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ali, fui o presidente do Grêmio, que foi fechado pelas razões mais torpes possíveis: nós lemos O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes. E, na sala do grêmio, tinha a foto de um menino guerreiro vietnamita, então falaram que estávamos estimulando a guerrilha. Tempos da ditadura, tempos sombrios.
Comércio - O senhor lutou contra a ditadura?
Chico Alencar - Era muito amigo dos padres dominicanos. Por ter muitos contatos na Igreja, ajudava pessoas perseguidas pelo regime a fugir. Não era da resistência armada do regime porque era muito novinho. Mas valeu a pena. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.
Comércio - Um dos movimentos importantes da sua vida foi quando o senhor foi um dos líderes da Federação da Associação dos Moradores do Rio nos anos 80. Como foi essa experiência?
Chico Alencar - Gosto muito de dar aulas. Mas, apenas dar aula não me bastava em termos de militância social e engajamento político. E era tempo de ditadura, todas as associações sindicais e estudantis eram muito reprimidas e controladas. Mas o cidadão não é proibido de conversar com vizinhos. Aí, especialmente no Rio, começou a surgir, no começo dos 80, a necessidade de se organizar para defender os interesses dos bairros. Essa chama do social e do político está sempre viva. Nenhuma ditadura, por mais violenta que seja, consegue apagar isso. Comecei na Associação do meu bairro, a Tijuca, e cheguei a assumir a presidência da Federação. Lutávamos em prol do interesse comum, dos equipamentos coletivos, da cobrança junto às autoridades por melhorias do saneamento básico até a preservação de áreas verdes.
Comércio - Quando decidiu assumir um cargo político?
Chico Alencar - Nunca planejei isso, mas depois de trabalhar com o grêmio estudantil e com o movimento comunitário na Associação de Moradores, era natural que se cogitasse exercer um mandato público. Eu me filiei ao PT em 1987, quando deixei a presidência da Federação da Associação dos Moradores. O PT era um partido pequeno, novo e ousado.
Comércio - O senhor é um adepto da Teologia da Libertação. Como conciliar religião e política?
Chico Alencar - A dimensão religiosa é plenamente conciliável com a vida política. A Teologia da Libertação fala de uma sociedade radicalmente igualitária, justa, fraterna e socialista, sem lucro, individualismo e competição, e acredito nisso. Mas o fato de ser cristão não implica em você criar partido ou bancada cristã. A dimensão da espiritualidade é uma dimensão pessoal. No mundo da política, a tua religiosidade deve te inspirar na luta pela verdade, pela justiça.
Comércio - O que causou o seu rompimento com o PT, em 2005, e sua partida para o PSol?
Chico Alencar - Não foi um gesto individual. Eu e muitos outros saímos devido a tudo que a gente aprendeu no PT. A gente até brinca: nós saímos do PT para continuarmos petistas no sentido original dessa expressão.
Comércio - Mas o que se perdeu?
Chico Alencar - O PT perdeu seu ethos revolucionário e a sua chama mudancista. Ele deixou de ser um partido da transformação social para ser um partido da adaptação à ordem, e isso desmotiva e traz muitas decepções. O processo foi muito doloroso, mas muito debatido. Construir o Psol tem sido muito duro. Tem um companheiro nosso que diz que o pior partido é aquele em que você está, porque você conhece por dentro as mazelas e dificuldades. Mas não me arrependo.
Comércio - E quais são as mazelas e dificuldades do Psol hoje?
Chico Alencar - Em primeiro lugar, nós não temos uma inserção social nem de longe como a que o PT teve. O Psol é um partido em formação, não se consolidou no imaginário da população como um instrumento de transformação. Segundo, a gente repete uma tradição da esquerda que é muito negativa. Às vezes, a gente prioriza mais gastar energia na disputa interna do que para fora, ou seja, falar com o povão.
Comércio - Os planos no PSol incluem a candidatura à Presidência da República no ano que vem?
Chico Alencar - Essa é uma pergunta que todo mundo faz e fala dentro do PSol, mas é uma pergunta um pouco fora de lugar. Porque o ano de 2013 começou com os grandes veículos de comunicação colocando como tema político fundamental a sucessão de 2014. De repente, com os protestos, sem líderes e sem as estruturas dos partidos e dos sindicatos, se descobriu que essa conversa estava completamente fora de sintonia com a realidade da população. Bagunçou todo o sistema dominante da política. Nesse caso, o PSOL não ter definição de nomes para a Presidência da República é porque estamos num processo de discussão do mundo e do país. Então, é muito melhor para a gente ter um projeto consistente para um País e não colocar o carro antes dos bois. Além do mais, há outros nomes que foram colocados, como o do senador Randolfe Rodrigues, da ex-deputada Luciana Genro e o Renato Roseno. Meu nome nunca foi colocado.
Comércio - O senhor foi considerado o deputado federal mais atuante pelo Prêmio Congresso em Foco, votado por jornalistas e pela sociedade, por quatro anos seguidos - de 2009 a 2012. O que esses títulos representam para o senhor?
Chico Alencar - Todo mundo tem o seu ego e a sua vaidade, e fico feliz e orgulhoso. Por outro lado, isso gera mais responsabilidade. Fico mal-acostumado, porque o dia em que não ganhar esse prêmio vou ficar deprimido [risos]. Mas é reflexo do trabalho em equipe.
Comércio - Em abril, o senhor saiu da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados por causa da presidência ter sido assumida pelo pastor Marco Feliciano (PSC/SP). Como foi tomar essa decisão?
Chico Alencar - Essa também foi uma decisão coletiva e muito avaliada pelos parlamentares que têm efetivo compromisso com os direitos humanos. Essa comissão permanente da Câmara dos Deputados existe há 18 anos e sempre foi presidida e hegemonizada por pessoas que tinham uma concepção de direitos humanos mais aberta e libertária. Só que, dessa vez, os partidos que têm bancada para escolher o presidente da comissão, coisa que o PSol não tem, foram abrindo mão. Então, a presidência caiu no colo do PSC (Partido Social Cristão), uma legenda que junta os fundamentalistas. E escolheram, quase que como provocação, o Marco Feliciano. Como éramos minoria, o que já estava caracterizado pela composição da comissão, a nossa opção foi não participar da Comissão presidida pelo Feliciano, e criar a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos. Ela não tem a mesma estrutura da Comissão Permanente, mas atua. Além disso, a formação da Comissão dura um ano só, não há mal que dure sempre.
Comércio - Em 2011, o senhor discutiu com o Jair Bolsonaro (PP/RJ), que lhe acusou de repassar R$ 11 milhões para a Parada Gay e de distribuir o kits gays, acusação que o senhor negou. O que houve?
Chico Alencar - Ele mente muito. Na verdade, a Comissão dos Direitos Humanos, em 2012, aprovou, como aprovava todo ano, recursos próprios para o programa Brasil contra a homofobia. Daí esses R$ 11 milhões, que um deputado só não tem. A questão é que não admiti que ele mentisse dizendo que o Chico Alencar deu R$ 11 milhões para o kit gay. É uma redução e é uma mentira porque nenhum parlamentar tem essa verba. Mas não tenho nenhuma dificuldade de assumir que o nosso mandato tem, sim, compromisso com a diversidade sexual.
Comércio - Os protestos que irromperam em todo o Brasil este ano modificaram o cenário político?
Chico Alencar - Os movimentos de massa, que começaram a eclodir em junho são muito importantes e geram muita esperança. O indivíduo vem para a cena pública e começa a compartilhar não apenas no mundo virtual, mas no real, uma série de demandas. Então, eles foram importantes porque, de alguma maneira, desarrumaram o sistema político dominante. O que se viu de lá pra cá? O irrevogável, que era aquele aumento de R$ 0,20 no preço da passagem de ônibus em São Paulo, foi revogado. A empáfia das autoridades que diziam que, por razões técnicas, era impossível não aumentar, foi parar no chão. O que não se votava no Congresso Nacional foi apreciado com rapidez. Até o Supremo Tribunal, que tem a famosa lentidão da Justiça, agiu rápido e decretou a prisão pela primeira vez de um deputado federal em exercício de mandato [Natan Donadon, sem partido, de RO]. Então, deu uma grande chacoalhada nos poderes dominantes.
Comércio - Como os políticos devem reagir aos movimentos?
Chico Alencar - Quem tem que decodificar aquelas demandas e transformar em ação concreta de política pública são aqueles que, daqui a pouco, vão estar aí pedindo votos. O povo na rua não tem a obrigação de formular detalhadamente as suas demandas em termos de programa de governo. A gente não deve minimizá-los, achar que foi uma onda que passou e nem endeusá-los. Não devemos dizer que “O gigante acordou” e “o Brasil se transformou radicalmente”, porque é um fenômeno recente. Acho que os protestos recuperaram no brasileiro a ideia de direitos, vontade de protestar coletivamente.