11 de julho de 2026

Luiz Aparecido Santos: artista por trás das paredes rumo a Milão


| Tempo de leitura: 8 min
Em sua casa, Luiz Aparecido Santos, mostra bolsa que lhe rendeu 3º lugar no Top de Estilismo de 2012

Ele acorda todos os dias antes do sol nascer. Às 5h30, Luiz Aparecido Santos, de 46 anos, está de pé. Às 7 horas começa sua jornada como pedreiro em obras espalhadas pela cidade. Ele só volta para casa nove horas depois. Quem o vê cercado de tijolos e cimento não imagina que Luiz Aparecido é um apaixonado por moda e design.

A paixão vem desde que tinha 9 anos, quando na escola começou a ter aulas de educação artística, mas ela ficou adormecida por contas a pagar, família para sustentar e muito, muito trabalho durante quase toda a sua vida. Só ressurgiu no início do ano passado, quando Luiz Aparecido resolveu ingressar no curso de moda e design de bolsas do Senai de Franca.

Aluno aplicado, não faltava às aulas. Mesmo chegando cansado, ainda tomava dois ônibus para sair do Jardim Aeroporto 2, onde mora, e ir até o Senai, na avenida Presidente Vargas. “Não era fácil. Muitas vezes cochilei no ônibus.”

O esforço foi recompensado. No ano passado, um trabalho feito despretensiosamente para a escola acabou conquistando o terceiro lugar do “Top de Estilismo”, um concurso para revelar novos talentos em design de bolsas e calçados realizado pela Francal Feiras.

Com uma bolsa feita de tampinhas de garrafas pet, encantou os jurados pela criatividade. A conquista lhe rendeu R$ 1 mil e a chance de participar de um sorteio que mudou sua vida.

Na cerimônia de premiação, Luiz ganhou no sorteio uma bolsa de estudos na Moda Pelle Academy, em Milão, na Itália, com todas as despesas pagas pela Francal. Ele embarcará no dia 1º de setembro e retornará só no início de dezembro.

Para Luiz, mais do que sorte, a premiação foi um presente de Deus que ele espera aproveitar para poder mudar de vida e trocar de vez as paredes das construções pelos laboratórios de desenvolvimento de produtos. Os planos de Luiz Aparecido é se tornar um empresário quando regressar da Europa. Conheça um pouco mais da história deste homem simples na entrevista abaixo.

Comércio da Franca - O senhor é pedreiro. Como foi parar em um concurso de estilismo?
Luiz Aparecido do Santos -
Essa é uma longa história. Na verdade, tudo começou há dois anos. Estava desempregado e buscando ideias para complementar a renda porque tenho uma família grande. Eram quatro filhos e minha mulher [hoje ele tem cinco filhos]. E foi uma coisa de Deus. Estávamos naquela época que proibiram as sacolinhas dos supermercados e meu irmão nos deu uma bolsa. Quando olhei, tive um insight e falei vamos fazer isso. Tinha experiência como pespontador e sapateiro. Tinha recebido meu PIS e comprei uma máquina de pesponto. Começamos a costurar e a vender essas bolsas feitas de uma espécie de lona emborrachada. O problema é que logo as sacolinhas voltaram e tivemos que mudar a produção. Passamos a vender sacolas para moda praia. Foi nesta época que fiquei sabendo de um curso de designer de bolsa no Senai. Resolvi fazer. Participar do concurso foi uma sugestão da professora Juliana que viu uma bolsa que fiz com tampinhas de garrafas pets e disse que tinha chances de ganhar.

Comércio - Mas contam que o senhor resistiu um pouco até efetivar a inscrição...
Luiz Aparecido -
É verdade. Eu fui quase obrigado a me inscrever [risos]. Eu nunca ganhei nada na vida. Sempre participei de rifas e nada. Achei que não teria chances. Eu que estava fazendo o curso tinha poucos meses e concorrendo com um monte de gente de todo o País. Eu pensava: ‘Que chance tenho? Não vou gastar com isso’. Mas nas aulas a professora sempre me cobrava a inscrição. De tanto ela falar, eu resolvi ir aos Correios e mandar a minha bolsa para o concurso.

Comércio - E como foi que ficou sabendo que tinha sido um dos selecionados para a final?
Luiz Aparecido -
Nós somos uma família humilde. Aqui não temos computadores e internet. Então, eu não tinha como fazer a consulta para saber quem eram os finalistas. No dia que saiu o resultado, eu lembro de ter saído da obra pensando que a hora que chegasse em casa iria pedir para a minha filha ir até uma lan house [casa que oferece acesso à internet] ver para mim. Mas quando eu cheguei ela estava dormindo e fui tomar banho para ir para a aula no Senai. Eu nem bem entrei no chuveiro e meu celular tocou. Eu não conhecia o número mas reconheci a voz. Era a professora Juliana me dizendo que estava entre os finalistas. Na hora, nem vi nada. Saí pulando e gritando de felicidade pela casa [risos]. Chorei, ri, fiz de tudo. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Eu não conseguia parar de rir.

Comércio - E como foi a premiação, em São Paulo?
Luiz Aparecido -
Foi um luxo só. Um sonho mesmo. Minha mulher foi comigo. Foi em um hotel super chique que não consigo me lembrar o nome agora. Eu nem acreditava que estava no meio de tanta gente refinada. Se eu não estou enganado, foram mais de 170 trabalhos na categoria material reciclável. Ficar entre os três melhores foi incrível. Mas o melhor mesmo foi ter ganho o curso na Itália.

Comércio - Por falar nisso, o curso o senhor ganhou em um sorteio...
Luiz Aparecido -
Foi sim. Foi a mão de Deus. A viagem e um curso foram um prêmio que sortearam durante a cerimônia entre todos os finalistas. Quando eles anunciaram o início do sorteio, eu senti que ia ganhar mesmo meu nome estando embaixo no pote. Eu lembro que fiquei gritando para a moça mexer os papéis e ela mexeu. Quando foram anunciar o vencedor, meu coração disparou. Aí disseram que era um homem, eu sabia que era eu. E leram meu nome. Eu só olhei para a minha mulher e comecei a chorar. Me ajoelhei no chão e rezei. Aquilo era um presente de Deus. Eu não acreditei no que estava acontecendo, eu estava sendo abençoado de novo. Para mim, já era um sonho ficar no terceiro lugar de designer de bolsa de material reciclável; ganhar um curso de moda na Itália era de enlouquecer. Eu nem dormi naquela noite e nunca rezei tanto.

Comércio - O senhor deve embarcar para a temporada de três meses em Milão, na Itália, no dia 1º de setembro. Como estão os preparativos?
Luiz Aparecido -
A todo vapor. Estou me organizando. Já tirei meu passaporte e, aos poucos, estou comprando roupas novas para eu levar. Além da viagem, do curso de design e da hospedagem, ainda ganhei um curso de italiano para poder entender as aulas. Faço duas horas por semana e já sei falar algumas coisinhas. Estou muito ansioso porque acho que esse curso será um divisor na minha vida. Quando voltar, vou ser outra pessoa. Só tenho muito medo do avião. Eu nunca entrei em um e nem sei como vou fazer.

Comércio - E quais são seus planos futuros? Já conseguiu realizar dois sonhos, qual o próximo objetivo?
Luiz Aparecido -
Lá, na Europa, eu já montei um roteiro de visitas que quero fazer. Me disseram que os países lá são muito perto uns dos outros. Em uma viagem de uma hora, consigo ir para a Suíça e para a França. Então, tenho um monte de lugar para conhecer. Quando voltar ao Brasil quero virar empresário. Andei sonhando que abriria uma fábrica de bolsas. Eu já escolhi até o nome da minha marca. Vai ser Maria Vitória. Até coloquei esse nome na minha filha caçula que nasceu no início do ano. Vou ser um empresário de sucesso. Vou mudar de vida com a ajuda de Deus.

Comércio - O senhor fala muito em Deus. Sempre O cita...
Luiz Aparecido -
É que sou um homem de muita fé. Veja a minha história. Nasci em uma família muito pobre. Não tive oportunidade na vida. Comecei cedo a trabalhar porque precisava ajudar em casa. Aos oito anos, já costurava sapato. Depois fui ser sapateiro e, desempregado, virei pedreiro. Meu destino poderia ter sido outro. Mas não. Trabalhei, fui honesto e Deus me ajudou. Sei, tenho certeza de que tudo o que está acontecendo a esta altura da minha vida é por causa Dele. Sou muito abençoado. Tenho uma família unida e feliz. Tenho força e saúde para trabalhar. O resto é não desanimar e correr atrás.

Comércio - Voltando um pouco, o senhor disse que quer se tornar um empresário. O que pensa do empresariado francano?
Luiz Aparecido -
Posso não responder essa pergunta?

Comércio - Eu gostaria que respondesse. O senhor trabalhou muitos anos em fábricas de calçados, o que pensa dos empresários da cidade?
Luiz Aparecido -
Posso então não citar nomes.

Comércio - É uma opção sua...
Luiz Aparecido -
Acho que existem empresários muito conscientes do seu papel e que sabem valorizar seus empregados. Por outro lado, existem outros que são verdadeiros cavalos. Não sabem tratar com as pessoas, não sabem conversar. Só pensam em ganhar dinheiro explorando os outros.

Comércio - O senhor está indo estudar em um dos centros de arte e criação do mundo. Muitos dizem que ainda falta muito para o Brasil alcançar a qualidade do design italiano em calçados e bolsas. O que pensa a respeito?
Luiz Aparecido -
Não concordo muito com essa visão não. Acho que aqui no Brasil existem muitos profissionais talentosos e criativos. Mas nem sempre eles têm os instrumentos necessários para se desenvolver. Eu, graças a Deus, estou recebendo essa oportunidade. Mas é uma coisa muito rara. Acho que se investissem mais no desenvolvimento e no aperfeiçoamento dos profissionais a realidade seria outra.

Comércio - E que conselho o senhor daria àquelas pessoas que estão começando a sonhar?
Luiz Aparecido -
Para não desistirem. Para acreditarem sempre que é possível. Hoje fico lembrando de quando a professora me pediu para enviar a bolsa para o concurso e eu tentei evitar. Se ficasse parado achando que não teria chances, como cheguei a pensar, hoje não estaria aqui. Não estaria dando esta entrevista para o jornal. Então, as pessoas precisam ter fé no trabalho que fazem e, claro, ter fé em Deus.