Cria e criador não fazem mais a menor questão de esconder as divergências. A diferença é que, enquanto o herdeiro manda recados indiretos, o padrinho é objetivo, certeiro, dá um soco no estômago. Na abertura da Francal, terça-feira, questionado pelo Comércio sobre o contrato que assinou na surdina com a São José abrindo mão de cobrar a empresa por irregularidades e sem fixar punições em caso de novo descumprimento, Alexandre Ferreira (PSDB) se eximiu de responsabilidades e disse apenas ter assinado a homologação. Sem citar nomes, creditou a Sidnei Rocha a culpa. “Não dá para falar que foi este governo. Pegamos a coisa andando. A ação judicial é do governo anterior.” Sidnei Rocha esperou três dias para dar a resposta.
Criticou Alexandre pela falta de transparência e foi duro e sarcástico com o afilhado político. “Tudo é do governo anterior, inclusive o prefeito. Sem o meu apoio, ele jamais seria prefeito.” Outro golpe de Sidnei Rocha foi dado sexta-feira à tarde após prestar depoimento na CEI do viaduto. Terminada a entrevista sobre a audiência, o ex-prefeito surpreendeu ao revelar que ainda tinha mais o que declarar, mas sobre outro assunto que não estava em discussão naquele momento. “Achei que você iria perguntar sobre as declarações do Alexandre.”
O gravador foi ligado novamente e Sidnei questionado sobre o teor da entrevista exclusiva que Alexandre concedeu ao Comércio na abertura da Francal em São Paulo. Ele afirmou que a atual administração não tem nada para mostrar. “Tudo o que tem é do governo anterior. As obras inauguradas até agora são do governo anterior, o prefeito é do governo anterior, né? Tudo é do governo anterior.” Chamou para ele toda a responsabilidade. “Se tiver alguma irregularidade, eu assumo, se tiver algum problema eu assumo.”
O ex-prefeito também condenou a forma com que o sucessor assinou o novo contrato a portas fechadas no começo de abril. O ato autorizando a empresa São José a ignorar parte significativa das exigências feitas pela Prefeitura no edital de licitação que escolheria a empresa responsável pelo transporte coletivo, foi feito na sala do procurador-geral do município. O dono da empresa São José, Belarmino da Ascensão Marta Júnior, e Alexandre selaram o acordo sem qualquer publicidade. A Câmara de Vereadores e a imprensa não foram avisadas.
O acerto entre a Prefeitura e a São José, principal alvo dos manifestantes que ocuparam as ruas de Franca no mês passado, só veio à tona há uma semana com a denúncia feita pelo Comércio. Para Sidnei, Alexandre errou ao não ter dado divulgação. “Ficou parecendo que ele, por bel prazer, foi lá e que quis ajudar a empresa. Faltou experiência, jogo de cintura. No lugar dele, chamaria vocês [imprensa] e diria: ‘vou assinar aqui um novo acordo por uma decisão judicial’.”
Após dizer o que pensa - apesar das críticas mais que diretas a Alexandre -, o ex-prefeito não falou em rompimento. “Minha popularidade é tal, que a minha presença em qualquer lugar, vai incomodar o prefeito. Comecei a perceber em todas as inaugurações que fui, que todo mundo dizia: ‘O prefeito de sempre, o maior prefeito que Franca já teve’. E ele lá junto.” Para Sidnei, era notório o constrangimento de Alexandre. “Comecei a perceber que isto era um fato que o incomodava. Como eu o coloquei na Prefeitura, sem o meu apoio, ele jamais seria prefeito, eu abri mão, mais uma vez, e me afastei de cena para ele poder tocar a administração dele”, concluiu.