No início da semana, o governo anunciou o plano ‘Mais Saúde’ de forma a melhorar a Saúde Pública no País, notadamente nas periferias de grandes cidades, municípios do Interior e da região Norte-Nordeste. Em síntese, além de apresentar propostas no sentido de aumentar a oferta de vagas em faculdades de Medicina para ampliar o número de profissionais, chama atenção a proposta de ampliar em dois anos a duração dos cursos para médicos, os quais teriam que ser cumpridos em unidades do SUS (Sistema Único de Saúde), além da contratação de profissionais estrangeiros.
Inicialmente, a mudança na grade curricular irá causar uma guerra na Justiça e, fatalmente, o governo será derrotado pela inconstitucionalidade da proposta. Além disso, o que salta aos olhos é que não faltam médicos no Brasil, o que ocorre é a falta de estrutura no serviço. Muitas cidades não contam com postos equipados e a contratação de médicos não será capaz de mudar o quadro. Será necessário um investimento de monta para que o quadro comece a ser mudado. Ao mesmo tempo, o governo ainda não anunciou uma mudança na remuneração aos hospitais conveniados, cujos valores estão congelados há 10 anos.
Assim, não é o caso de apenas contratar médicos já que a falta de interesse no atendimento em rincões e comunidades carentes passa menos pela questão financeira e mais pela condição do sistema em si. Criar dois anos de ‘residência’ para atendimento pelo sistema do SUS — caso seja declarada legal —não surtirá efeito se não for acompanhada pela melhoria das condições de trabalho e aumento da verba para o setor, prioritariamente. O que mais se vê nos últimos anos é uma anemia crônica em todo o serviço público de saúde: a falta de materiais de trabalho, condições para internação e atendimento aos pacientes levam à falta de profissionais. Dificilmente um médico consegue levar a bom termo a sua profissão se não contar com um mínimo de respaldo, tanto material quanto financeiro.
O governo tentou dar uma resposta rápida aos protestos populares que pipocaram em todo o Brasil no mês passado e precipitou a adoção de medidas que vinham sendo estudadas há dois anos. Porém, os maiores interessados não foram ouvidos: os conselhos (federais e estaduais) de Medicina. Aparentemente, o governo desconhece as causas reais que levaram a Saúde Pública à situação em que se encontra hoje: um grande número de hospitais e ambulatórios em regiões mais carentes sente a falta até de materiais básicos, como fios cirúrgicos e aparelhos de raios-X. Faltam até camas! São situações que um médico, por melhor que seja, não tem como contornar. Se o governo fortalecer a estrutura, com certeza os médicos estarão dispostos a preencher as vagas que surgirem. Porque nenhum deles quer ser acusado de negligência — ou processado por isso — quando houver falta de condições de trabalho.