08 de julho de 2026

Crime e castigo


| Tempo de leitura: 3 min

Não vou falar sobre a obra de Fiodor Dostoievski, mas confesso que assistir ao filme me serviu de inspiração. Sugiro associarmos o “crime” aos nossos atos, erros, equívoco e o “castigo” às suas consequências. Todo “crime” merece “castigo” ou punição? A resposta não é tão simples quando olhamos para nós e percebemos que somos errantes e que praticar ‘crimes’ é inerente aos humanos. Não cometemos “crime” ao percebermos as injustiças sociais existentes e, mesmo assim, nos mantemos inertes? Cometemos “crime” quando tiramos vantagens sobre os outros e fundamentamos que isso é “mercado”, ou quando brincamos com os sentimentos a-lheios, ou quando deixamos de valorizar as pessoas que nos amam e as trocamos por qualquer aventura? Toda ação gera uma reação e todo ato produz consequência.

Sabemos disso, mas o nosso desejo é capaz de apagar as nossas resistências e acabamos cometendo deslizes e, quando somos descobertos, sempre colocamos a culpa no outro. Esse mecanismo nos ajuda, ao menos, amenizar as consequências internas dos nossos atos, isso quando não ‘apaga’ as externas. Temos dificuldades para assumir os nossos atos, pois eles revelam quem realmente somos sem as máscaras que colocamos para viver em sociedade. Há muita representação em nós. Deveríamos ser quem realmente somos ou somos quem os outros desejam? No filme O Mundo de Sofia essa pergunta é fundamental: “quem é você?” Se pudéssemos responder dizendo francamente ao mundo quem somos será que os outros continuariam nos apreciando? Somos capazes de aceitar os outros ou queremos que eles continuem como desejamos para não lidar com a angústia do “desconhecido” ou do (in)desejável?

Viver é assumir consequências! Não adiante se esconder, ser omisso ou de atitude, pois todos produzem resultados que muitas vezes escapam aos nossos desejos. Acertos e erros fazem parte da nossa vivência/existência. Precisamos saber como lidar com escolhas conscientes ou inconscientes que fazemos a todo instante. Depois de escolher estejamos prontos para ser “castigados”, sabendo que o nosso ser interior conhece tudo e nele não há sombras, manobras políticas, etc. para aplacar ou amenizar as consequências das escolhas. Uma coisa é certa: todo “crime” obriga o sujeito a praticar atos que possam justificar ou esconder as suas consequências, pois, o “castigo” nem sempre é desejado de forma consciente e, a “confissão”, acaba permitindo um refrigério na alma. As palavras que usamos em nossos discursos revelam o “crime” que cometemos e o “castigo” que tentamos ter ou evitar.

Não há como escapar, pois o desejo acaba se manifestando de algum modo. Se não vai para o discurso, acaba indo para o corpo, para a mente. O “castigo” serve para mostrar que podemos desejar tudo, mas que não podemos ter e fazer tudo. Há regras que precisam ser respeitadas para evitar o caos social, o humano, o político e o “castigo” serve como freio. Acredito que as facilidades atuais, onde podemos comprar tudo em várias parcelas no cartão de crédito, sejam também responsáveis pelas “irresponsabilidades” que estamos presenciando, pois se estamos “angustiados” compramos o “prazer”. Onde há gozo absoluto não há desejo e só há desejo onde há falta. Pelo “gozo” conhecemos os nossos “crimes” e “castigos”? As drogas não são utilizados por nós como forma de permanecer em “gozo” absoluto para tampar as faltas que precisam ser trabalhadas? Será que tem ligação com Crime e Castigo?

Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário