‘As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara’
Sócrates, filósofo grego
Shakespeare foi um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Hamlet, sua obra-prima, foi escrita em 1601. O enredo mescla temas complexos e viscerais - e por isso mesmo, universais e atemporais: inveja, poder, traições, desprezo, ódio, vingança. A história se passa na Dinamarca, onde o rei Hamlet é morto por Cláudio, seu próprio irmão. O protagonista é o príncipe de mesmo nome, filho do rei assassinado, que decide se vingar do tio. Há inúmeros complôs, brigas e, claro, mortes.
Muitas das frases que se tornaram icônicas ao longo dos séculos têm sua gênese nesta peça. ‘Ser ou não ser, eis a questão...’, ‘Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia’ e ‘Duvida da luz dos astros, de que o Sol tenha calor, duvida até da verdade, mas confia em meu amor’ são apenas algumas delas. A minha preferida é a fala do guarda Marcelo a Horácio, amigo do príncipe Hamlet, na Cena IV do primeiro ato: ‘Há algo podre no reino da Dinamarca’. Definia com precisão o clima recheado de intrigas palacianas, disputas de poder e assassinatos por tudo - e por nada - na Europa das monarquias absolutas. Cai como uma luva para definir também o ambiente político do Brasil republicano de hoje. O mau-cheiro no país, resultado dos desmandos e despreparo de uma classe política autista em sua quase totalidade, é onipresente. Nem mesmo a série de protestos que reuniu milhões de brasileiros nas ruas parece ter sido suficiente para provocar uma faxina profunda. A desfaçatez é geral.
No plano federal, houve os episódios do ‘passe livre’ em aviões oficiais. Primeiro, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves (PMDB), mandou um jatinho da FAB (Força Aérea Brasleira) buscá-lo em Natal, no Rio Grande do Norte, para levá-lo ao Rio de Janeiro. Queria assistir à final da Copa das Confederações. Junto com ele viajaram sua noiva, dois enteados, seu próprio filho e três amigos. Terminado o jogo, o grupo voltou do mesmo jeito para a capital potiguar.
Depois, o presidente do Senado, que não ficou atrás. Renan Calheiros (PMDB), cujo nome está intimamente associado a escândalos, também requisitou um avião da FAB para fins semelhantes. No caso de Renan, o jatinho foi usado para levá-lo de Macéio a Trancoso, na Bahia. Foi a um casamento. Terminada a festança, Renan e sua trupe seguiram, de madrugada, até Brasília. De jatinho oficial, é claro.
Aqui em Franca, a farra dos políticos não foi com dinheiro público. Mesmo assim, distintos episódios reforçam a sensação de que somos avaliados como idiotas por parte daqueles a quem delegamos a missão de nos representar.
Um desses episódios tem como protagonista o vereador Claudinei da Rocha (PP). Ele havia assinado a lista para criação da CEI da São José, proposta por Luiz Vergara (PSB). Pressionado pela prefeitura, que não mediu esforços para melar tudo, Claudinei recuou, voltou atrás e pediu que sua assinatura fosse retirada do documento. A medida inviabilizaria a comissão, o que só não aconteceu porque outro vereador, Josevaldo Bahia (PTB), aderiu à proposta de CEI. Foi aí que Claudinei, intimidado, mudou de ideia outra vez. ‘Reassinou’ a lista da CEI que havia ‘desassinado’ instantes antes. O vídeo está disponível em nosso portal.
O próprio Vergara, a quem cabe o mérito de viabilizar a criação da CEI da São José, mostrou que continua muito abaixo do limite mínimo de coerência que se espera de um homem público. Presidente da comissão, Vergara disse, em entrevista gravada, que as gratuidades seriam avaliadas e poderiam ser revistas. Falou bonito. ‘Se houver exageros, seremos obrigados a cortar, pois quem paga é o usuário comum. Às vezes, seremos obrigados a tomar medidas antipáticas, porém, necessárias’, bradou. Horas depois, um recuo vexatório. Numa nota distribuída por sua assessoria, Vergara avisou que lutará para manter as gratuidades. Mais demagógico, impossível. Não é a primeira vez que Vergara age assim. Nos tempos do PT no comando da prefeitura, eram frequentes episódios em que Vergara falava e depois ‘desfalava’. Numa dessas ocasiões, chegou a processar o Comércio. Perdeu. Pelo visto, o hábito de dizer ora uma coisa, ora outra, continua o mesmo.
Mas o presidente da Câmara de Franca, Jépy Pereira, é insuperável. Como diria o colega Luiz Neto, que apresenta as cerimônias do Top Franca, Jépy é hors concours. Não tem para ninguém. Sua última performance é, desde já, antológica. Jépy presidia a sessão de terça-feira. De repente, avisou que precisava se ausentar. Alegou que tinha que cuidar de ‘assuntos administrativos’. Foi como se estivesse saindo por instantes. Não estava. Simplesmente não voltou mais. Fotos suas, refestalando-se em Havana, capital cubana, podem ser facilmente encontradas na área pública das redes sociais. Jépy não pediu licença do cargo sem vencimentos nem distribuiu nota à imprensa explicando coisa alguma. Nada.
Reza o provérvio que ‘a vida imita a arte’. Não há como duvidar. Na mesma peça de Shakespeare em que um personagem dizia que o reino estava podre, Hamlet lamentava o caráter dos homens de seu tempo. ‘Do jeito em que o mundo anda, ser honesto é ser escolhido entre dez mil’. Pouco mais de 400 anos depois, a degradação moral que acompanha boa parte dos políticos brasileiros só reforça a sensação de que, neste mundo em que tudo muda tanto, a única coisa que quase nunca muda é a política neste país. Em Hamlet, o protagonista se vinga com sangue. Nas democracias modernas, o voto é a arma possível. Que as urnas sejam impiedosas daqui por diante com todos que riem de nós. O povo está cansado, os políticos seguem surdos. Um bom voto resolve o problema. Na Dinamarca, ou aqui.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br