08 de julho de 2026

Arrepiados de orgulho


| Tempo de leitura: 5 min

Gosto dos textos de Alexandre Fischer, do Marketing do GCN, e competente chargista deste Comércio. Convidei-o a falar sobre o momento cidadão que o País atravessa. Ele aceitou.

Temos conversamos muito sobre os movimentos populares que estão devolvendo o Brasil à vivência de cidadania. Alexandre tem visões muito próprias. Topou escrever sobre. Compartilho com meus leitores. Imperdível: “Jovem durante a implantação do regime militar, meus contatos com a brasilidade se baseavam na obrigação cívica de decorar todos os hinos e símbolos nacionais e cantá-los e saudá-los diariamente na escola. Não entendia a necessidade daquilo mas, mecanicamente, atuava como cidadão exemplar, ou algo parecido. Eram tempos complicados, em que recebíamos informações da mídia emolduradas pela censura sobre a realidade de tal regime, e éramos intimidados pela forte e sempre presente ação da polícia militar: três ou mais pessoas conversando na praça poderiam ser facilmente considerados possíveis transgressores, colegas de 15, 16 anos eram levados em viaturas para suas casas se pegos perambulando após as 22 horas, juízes de menores postados na entrada de cinemas e clubes noturnos e muitas, muitas outras ações que poucos se atreviam mencionar, mas muitos se lembram.

Guardei pouca informação ressentida da época, mas muito das filas ordeiras no pátio da escola, mão sobre o coração e olhar altivo ao hasteamento da bandeira. Nunca mais me esqueci das letras dos hinos nacionais. Orgulhoso, descobri depois de adulto que nossos Hino nacional e bandeira são admirados por todo o mundo, pela musicalidade de um e pela plasticidade do outro.

Nos trinta anos seguintes à queda do regime poucas vezes ouvi o hino fora dos gramados e raríssimas vezes o orgulho me tomou conta. Nenhuma dessas vezes a tão admirada musicalidade e a plasticidade do pendão me provocou arrepios. Até as 17h57 do último dia 23 quando o coro composto por mais de 73 mil vozes me fez sair da apatia diante de mais um jogo de futebol e conseguiu me deixar arrepiado, literalmente, dos pés à cabeça. A força com que a plateia de Brasil x Espanha cantou nosso Hino nacional foi contagiante, foi empolgante, foi emocionante. Renovou todo o orgulho embaçado pelas décadas de decepção e me fez retomar a juvenil postura com a mão no coração e olhar altivo, como se mirasse no horizonte o estandarte nacional, e com impacto capaz de produzir uma pequena lágrima no canto do olho.

Foi belo ver a brasilidade renascendo. Intensificou a emoção o fato de saber que toda aquela emoção despejada nas arquibancadas do Maracanã não se referia especificamente ao jogo que ocorreria, mas às manifestações de civismo, de civilidade e de amor à Nação, ocorridas nos dias anteriores e continuada nos dias seguintes. Depois de ver décadas e gerações que fizeram questão de confundir Pátria com governo, Nação com governante, renovaram-se minhas esperanças na essência de qualquer País: seu povo! Afinal, governos são transitórios, mas a Pátria não. Os governantes são substituíveis, ao contrário de uma Nação. Partidos são voláteis e alguns até mercenários, mas a esmagadora maioria do povo não.

Claro que o jogo que se seguiu ao Hino foi empolgante, mas para mim foi apenas a coroação de uma manifestação gloriosa de patriotismo. Creio que pela primeira vez na história de uma Copa das Confederações o jogo foi apenas o coadjuvante. Assim como coadjuvantes se sentiram tenho certeza a maioria da classe política reinante diante das manifestações públicas de poder popular das massas pacíficas. É um caminho sem volta. Apesar de saber que muitos ânimos acabarão esfriando com o correr dos dias, sabemos também que as imagens das passeatas ficarão por anos gravadas na memória de nossa gente e o grito expelido da garganta das multidões ecoarão sem barreiras por gabinetes desse nosso Brasil. Impossível prever o que será feito de toda essa manifestação de força. Que resultados práticos serão obtidos daqui para a frente. Infelizmente aqui em nossa Franca parece que a surdez e a negligência imperam. Resta saber até quando.

MANIFESTO
Recebi cópia de manifesto popular que achei interessante. Não se sabe resultado prático, mas, poderia se tornar:

1. Fica abolida sessão secreta e não-pública para qualquer deliberação nas casas do Congresso Nacional. Todas as sessões são abertas ao público e à imprensa; 2. O congressista é assalariado somente durante o mandato. Não há ‘aposentadoria por tempo de parlamentar’, e apenas o prazo de mandato exercido será agregar ao tempo de serviço junto ao INSS, referente à sua profissão civil; 3. Congressistas e funcionários contribuem ao INSS. Toda contribuição passada, presente e futura ao fundo de aposentadoria do Congresso passará para INSS imediatamente. Congressistas participarão dos benefícios no INSS como todos os brasileiros. O fundo de aposentadoria não será usado para qualquer outra finalidade; 4. Congressistas e assessores devem pagar por seus planos de aposentadoria; 5. Fica vetado aumentar os próprios salários e conceder gratificações fora dos padrões de salários da população em geral, no mesmo período; 6. O Congresso e seus agregados perdem seus atuais seguros de saúde pagos por contribuintes e passam a participar do mesmo sistema de saúde do povo; 7. O Congresso deve cumprir todas as leis que impõe ao povo brasileiro, sem imunidade que não aquela referente à total liberdade de expressão quando na tribuna; 8. Parlamentares não podem servir em mais de duas legislaturas consecutivas.”

ESTE ESPAÇO É DEMOCRÁTICO
Ai está. Sei que gostamos (incluo-me, hoje, dentre meus leitores). Farei mais disso, dando voz a quem tem o que dizer. A experiência, certamente, democratizará a corrente de pensamento cidadão que publico aqui, todas as semanas. Grato ao Fischer, por ter aceito iniciar mais um movimento neste Brasil novo.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br