Já faz alguns anos. Ela ainda era pequena, a minha caçula Júlia. Estudava no antigo primeiro grau. Veio chegando assim, no seu jeitinho de sempre, brejeira, curiosa, um caderno na mão e caneta em outra. Foi logo perguntando:
- Pai, você sabe as sete maravilhas do mundo antigo?
Foi assim de supetão, sem intróito, sem preparação alguma que minha filha de 13 anos, a caçulinha, me cobrou numa das noites daquele tempo. Levantei-me do sofá, sisudo, ar professoral, desliguei a televisão, voltei a sentar-me e pensei numa resposta. E antes que eu pudesse demonstrar algum conhecimento sobre o assunto, sem dúvida “palpitante e atualíssimo”, ela atalhou:
- Já consultei na internet, mas não aparecem as sete de uma vez. Então resolvi perguntar a você!
Naquela época a internet ainda não trazia o conteúdo fenomenal de hoje.
“Ótimo!”, pensei eu, “ainda acreditam em que eu saiba alguma coisa.”
Logo, ela atalhou de novo:
- Cinco eu sei. As pirâmides do Egito, o farol de Alexandria, o colosso de Rodes, os jardins suspensos da Babilônia, o... A...
Pronto, ela não sabia nem cinco na ponta da língua.
Contribuí com uma:
- O túmulo de Mausolo, em Halicarnasso. (Espantei-me com a minha lembrança, porque isto deveria estar armazenado em algum canto poeirento da memória, desde que eu usava calças curtas no ginásio do Estado).
- Como é?
- O túmulo do rei Mausolo, na cidade de Halicarnasso. Daí é que vem a palavra mausoléu.
- Hã! Tem certeza?
- Tenho.
- Bom, agora só falta uma. Já telefonei para meus colegas de classe, mas eles não conseguiram chegar a três. Mesmo consultando a internet.
Na época, acho que nem Google existia. Pensei: “Se a internet não traz uma informação dessas, como é que eu a teria de memória?”
Telefonei para um amigo, advogado, não professor de História, mas sempre com respostas para nossas dúvidas. Perguntei-lhe esperançoso:
- Você sabe de cabeça as sete maravilhas do mundo antigo?
Tive de repetir a questão, porque ele achou que era começo de uma piada ou pegadinha, envolvendo o Lula, o Papa, o diabo a quatro.
Ele não sabia mais que três.
Consultei as minhas enciclopédias antigas, velhas mas sempre confiáveis quando se trata de uma pesquisa sobre coisas que não envolvam assuntos da atualidade. E encontrei:
1. as pirâmides do Egito;
2. os jardins suspensos da Babilônia;
3. o colosso de Rodes;
4. o farol de Alexandria;
5. o túmulo de Mausolo, em Halicarnasso;
6. a estátua de Júpiter, atribuída a Fídias;
7. o templo de Ártemis, em Éfeso.
Tomei nota numa folha os nomes daquelas maravilhas que, na enciclopédia, vinham encimadas por um título em latim De septem orbis miraculis, o opúsculo em que Fílon de Bizâncio arrolou as obras-primas da arquitetura e escultura que exercitavam a admiração universal, há tanto tempo, há tantos séculos.
Dei a resposta à minha filha.
Liguei a televisão a ponto de assistir ao finalzinho do Jornal Nacional, enquanto a menina caprichava na letra, em seu caderno, nos nomes das sete maravilhas do mundo antigo. “Não podia ser trabalho digitado!”, advertira ela. Pensei seriamente sobre as questões didático-pedagógicas da professora.
Sentei-me no sofá com ar de missão cumprida.
Foi quando Júlia, ela mesma, a caçulinha, pôs ponto final na primeira parte de seu trabalho de História. Levantou-se da mesa, arrumou o cabelo caído sobre a testa, fitou-me com ar desafiador e disparou:
- Pai, agora para completar a lição, quais são as sete maravilhas do mundo moderno?
Por que ela não me perguntou as sete notas musicais?
Aí o tempo passou.
Aí a Júlia, já na faculdade, perguntou-me assim de supetão:
- Pai, dê-me uma definição de física quântica.
Santo Papa! Voltei à minha biblioteca. Demorei uns dez minutos para encontrar a definição num livro editado em 2009. Citei-a à Júlia. Minha filha não pareceu muito satisfeita. Agora sim, ela foi ao computador e em menos de dez segundos encontrou a definição atualizada no dia anterior.
Olhei melancolicamente meus livros dispostos nas prateleiras. Meu Deus, estão quase se tornando inúteis!
Interessante isso: no meu tempo de estudante, usávamos a cabeça para a pesquisa nos livros das bibliotecas, aprendíamos muito. Hoje, os jovens buscam respostas no computador, e sabem mais sobre assuntos atualizados ontem.