Caminho.
Caminho meu caminho de volta.
Quando comecei, não havia trilhas, não havia estradinha boiadeira. Eu abria picadas com os pés desnudos, percorria veredas de ninguém sabidas, povoando mãos e pés de feridas nunca de todo cicatrizadas. A vitalidade e o arrojo, em prosa e verso exaltados, resultaram, quase sempre, estorvo grande. Nunca me foram bengalas, nem cajados.
Ao longo da jornada porém e por sorte -luzes sempre surgiram acesas em brejos e curvas.
O primeiro farol foi a mãe Sebastiana, ensinando rezas, contando histórias da vida de santos. E farol também foi o pai Vadico, cuja frase repetida a toda saída de casa, ecoa e ressoa ainda hoje, às margens do caminho:
- Vamos com Deus adiante.
Houve um tempo em que quatro lanternas foram acesas, empunhadas por Nair Rocha, Maria Peixoto, Carlos Faciroli e Antônio Peixoto. O foco de todas elas, mirando o mesmo ponto, iluminou intensamente as pinguelas do aprendizado primário, e eu transpus, com segurança e amparo, os primeiros abismos.
Aquelas lanternas nunca se apagaram. Ao contrário, impregnaram meus pés ainda descalços e se fizeram mola propulsora, forçando-me à busca de nortes, à descoberta de novas Américas. Impuseram-me a contínua travessia de riachos e córregos.
E eu caminhava.
Caminhava, caminhava, e os caminhos se alargavam e se iluminavam de diferentes cores, de diferentes origens.
Ainda quando as sombras mais escuras ficavam para trás, e as curvas adquiriam amenidades, e a viagem semelhava passeio, eu me perdia em encruzilhadas e em desvios que me produziam feridas profundas e machucados doídos.
É que o caminhante, ávido de atalhos arborizados e floridos, enveredava por becos e ruelas que conduziam sempre ao sítio do retorno.
Por sorte, mesmo lá, em meio à bruma, apareceu sempre um vaga-lume vagalumeando.
Então, qual boi atrás do candeeiro, eu seguia a brasa que se acendia e se apagava. E retornava à estrada.
Depois dos percalços todos, de aprendizados tantos, chego à margem do Grande Rio. À minha frente há uma ponte larga, unindo as duas margens. Agora devo transpô-la.
E, então, só me restará um pedacinho de caminho a percorrer.
Acelerarei o passo, atingirei depressa as margens do Grande Oceano. Avistarei um anjo que desenha pegadas na areia. Ele tomará minha mão, entraremos em canoa, e ele me conduzirá, através das águas, até o parque infantil de minha infância, cujos brinquedos eram admirados de longe por minhas irmãs e por mim, todos embevecidos.
O anjo me soltará a mão.
Não haverá portas, nem guichês.
Correrei em direção às bexigas coloridas, em direção aos aviõezinhos, em direção aos barquinhos, em direção ao carrossel, em direção à roda-gigante...
E serei devorado pela infinitude de luzes.