Depois dos grandes protestos que chacoalharam o Brasil e atravessaram o mês de junho levando um claro recado à classe política brasileira, nos últimos dias novos atos se organizam e, agora, passam a contemplar setores distintos: enquanto na vizinha Restinga integrantes do MST (Movimento dos Sem-Terra), ligados ao assentamento da Fazenda Boa Sorte, fecharam ontem as duas pistas da Rodovia Cândido Portinari em torno de 3 horas, em outros pontos do País caminhoneiros fizeram bloqueios em rodovias estaduais e federais reivindicando o fim da cobrança nos pedágios e apresentando outras demandas da categoria. Ainda ontem, em Franca, professores da rede municipal também protestaram pedindo valorização, equiparação salarial e criação de um plano de carreira. Já na semana passada, manifestações de médicos — contra a ‘importação’ de profissionais estrangeiros para atendimento em localidades remotas — e de outras categorias profissionais também foram registradas.
O protesto contra os gastos com estádios para a Copa do Mundo, domingo, no Rio de Janeiro, antes da final da Copa das Confederações vencida pelo Brasil sobre a Espanha, terminou em novo confronto quando um grupo resolveu ignorar o acordo para que não avançasse sobre o perímetro de segurança e enfrentou a tropa de choque da Polícia Militar e agentes da Força Nacional de Segurança com pedras e bombas caseiras, deixando um rastro de destruição por onde passava. Os baderneiros foram rechaçados com bombas de efeito moral e tiros de balas de borracha.
O que se percebe é que os protestos contra tudo continuam, só que desta vez segmentados por grupos específicos, cada um defendendo a sua causa. Os brasileiros ‘descobriram’ uma forma ruidosa de reivindicar e cobrar ação dos governantes, ao ver que as grandes manifestações do mês passado já surtem resultados. O ‘congelamento’ no preço do transporte público, o cancelamento dos aumentos e as respostas do Legislativo às demandas populares são mais do que visíveis e só ocorreram depois que o povo saiu às ruas para protestar.
O que não se pode é admitir a ação de grupos de vândalos que se aproveitam da movimentação para barbarizar, destruir bens públicos e privados e atacar a polícia. Desta forma, os atos perdem a força e a razão. Além disso, alguns protestos estão causando prejuízos a outros quando fecham ruas, atrapalham o trânsito e deixam quem não tem nada a ver com a situação de mãos atadas, sem ter como prosseguir rumo aos seus trabalhos, casas ou em busca de atendimento médico. Foi como ocorreu ontem em Restinga: os organizadores impediram o livre trânsito dos carros que seguiam nos dois sentidos da estrada, sem ao menos um aviso anterior que pudesse minimizar os transtornos. Neste caso, deve-se buscar o equilíbrio entre os protestos e o direito de ir e vir do cidadão. Porque, ao contrário, segue-se rumo a uma baderna que pode perder todo o apoio popular que os movimentos conseguiram até agora.