03 de abril de 2026

Feijão: afetivo, agregador e festivo


| Tempo de leitura: 4 min
Historiadores acreditam que a feijoada tenha se originado dos escravos

Num sábado desses, almoçando um dos meus pratos preferidos: feijoada completa, meu marido se saiu com aquela observação meio senso comum entre nós brasileiros: “então temos aqui essa delícia inventada pelos escravos”. Sim, embora haja quem divirja, a maioria dos historiadores e antropólogos concorda que a feijoada, que utiliza todos os pedaços do porco - como pés, rabo e orelhas -, tenha se originado dos escravos, embora se saiba que o prato não tenha se originado na África. Mas a história desse prato que nos resume começa muito antes e foi se transformando, a cada palpite dos nossos originadores.

Não é a toa que Carlos Alberto Dória diz que a feijoada tem o caráter de resumo da formação social brasileira. Estudar a feijoada é nos estudar, porque se encontram ali dentro daquele caldo escuro, nutritivo, feio e extremamente saboroso, a mistura do que somos.

Se somos feijoada, não é senão por outro motivo: fomos desde sempre feijão com farinha. Os cronistas quinhentista já relatavam que os índios consumiam feijões e favas, diziam-no comandá. Tal informação leva a crer na origem brasileira de alguns tipos de feijões, como o feijão-espadinho ou feijão de lima, uma espécie de trepadeira bem alta que dá uma vagem esverdeada de alto poder nutritivo. Pois bem, tinha por aqui, mas tinha também em Portugal: os feijões já figuravam em documentos do século XIII, citando uma espécie conhecida por nós, o feijão fradinho.

Pois então, tínhamos aqui, vieram de lá, e de acolá, o feijoeiro está espalhado por toda a África Equatorial, em quantidade e espécies. Como se vê, nós brasileiros nascemos cercados de feijões por todos os lados, não tinha jeito, incorporamos o hábito e os elevamos a condição de indispensabilidade, associá-lo à farinha foi um pulo.

Interessante que os aqui originados não fossem loucos por feijão como a gente o é - os índios os comiam, é verdade, mas gostavam mesmo era de mandioca e milho. Os portugueses acabaram cedendo, mesmo os imigrantes contemporâneos souberam apreciá-los, mas como uma coisa a mais para se comer. Para os portugueses, o que importava era o cozido de legumes e hortaliças.

Estabelecemos um vínculo afetivo com o feijão, pois ele foi um dos elementos fundamentais na fixação daquelas que foram as primeiras famílias brasileiras. Sabemos como feijão dá fácil, não é a toa que as professoras os escolhem como prova do potencial de agricultor das crianças. Agregador, ele seguiu o homem por toda a parte, sendo plantado, colhido e cozido pelas mulheres da família.

Vejam que interessante: indígenas e africanos não cozinhavam seus alimentos misturados, se era milho, era só milho, se era mandioca, era só mandioca. Poderiam comê-los juntos, mas feitos em panelas separadas. Quem junta tudo para nós são os portugueses. Vejam só: quando o escravo comia misturado, era por imposição do homem branco, como o caso do milho e do feijão. Curioso que este hábito escravo tenha cruzado um oceano, pois em Angola come-se esse prato.

Ao comentário de meu marido, preferi não responder taxativamente, preferi buscar na fonte, com o autor que pode perguntar pessoalmente a uma velha escrava sobre a feijoada. Câmara Cascudo resume assim: “O feijão com farinha é indígena, e com carne guisada, refogada, é português; cozidos conjuntamente temos a feijoada mais vulgar. O escravo negro, recebendo os elementos separadamente, adotou o modelo ameraba.”

Formada estava a feijoada, ornada com a farinha de mandioca, por imposição indígena, depois a couve, a laranja. Produtos da fauna e da flora brasileira à mercê da técnica culinária portuguesa. Se não uma unanimidade é a nossa maior preferência até hoje.


DICA DA SEMANA

Massa

Descobri uma receita de massa para torta e desde então não faço outra. Em verdade só utilizei como massa para torta salgada, mas não tenho dúvida de que ela serviria bem ao sal e ao doce. A massa dá um resultado final tão bom, que é possível fazê-la como torta mesmo, coberta, mas vira uma quiche deliciosa, conforme a preferência de quem faz.

A receita é simples

1 ½ de farinha de trigo (usei a orgânica)
8 colheres de sopa de manteiga em temperatura ambiente
¾ de xícara de ricota fresca (não substitua por queijo fresco, pois esse solta água e desanda a massa)
½ colher de chá de sal
Manteiga e farinha para untar forma de 20 cm de diâmetro

Acho que vocês viram que a ricota é o pulo do gato da receita e fica muito bom! Você deve soltar a ricota com um garfo antes de incorporar. Sove a massa numa superfície lisa por 6 minutos, você terá uma massa macia e lisa.

Aí faça assim, se quiser uma quiche estique-a com rolo e coloque-a no fundo e nas laterais da forma. Se quiser uma torta fechada divida a massa em duas partes desiguais, coloque a maior pelos fundos e laterais e cubra com o pedaço menor.

Quanto ao recheio, eu fiz com cenoura, cebola, ricota e ovo batido. Mas as sugestões são infinitas.