05 de abril de 2026

O número e eu


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Um amigo - adepto da Filosofia Rosacruz - querendo ajudar em minhas escolhas nas encruzilhadas da vida, presenteou-me com um livro que abordava a problemática do homem e seu destino. Confesso que não aproveitei satisfatoriamente as lições contidas na obra.

Para assimilação dos ensinamentos, exigiam-se mapa, régua, papel e lápis a fim de se calcular e anotar latitude e longitude exatas do local de meu nascimento. Até aí, não houve dificuldades. Deveria anotar, também, além de dia, mês e ano, a hora de minha chegada ao mundo. O obstáculo foi intransponível.

Meu pai nunca se ocupou de detalhes tais, preocupado com o sustento da prole que só fazia aumentar. Minha mãe, depois de tantos partos, misturava as datas de nascimento, confundia as idades dos filhos.

Imagine se tinha tempo pra escrever... Se não fosse a certidão de batismo... ah, não sei não...

Assim, fiquei privado de dado fundamental e não pude alcançar conhecimentos maiores no campo do ocultismo. Meu espírito, todavia, se identifica com o que diz aquela canção antiga:

“Não sou nenhum São Tomé
No que não vejo
Eu ainda boto fé”

Por isso, mesmo correndo riscos, longe de suportes e de apoios teóricos, acredito que os números 6 e 1915 a mim estão ligados como irmãos siameses.

Explico. Dona Sebastiana, minha mãe, nasceu no mês de junho, no ano de 1915. O jornal Comércio da Franca nasceu um dia depois, no mesmo mês de junho e no mesmo ano de 1915.

A mãe, aqui chegada no dia de São Pedro, transmitiu-me parte da intensa religiosidade de que era dotado o seu espírito. E é responsável maior pelos acertos (poucos) que cometi e cometo na vida.

O Comércio da Franca, em vinte anos de convivência, noticiou estradas inóspitas do meu caminhar literário. À custa de tropeços muitos e frequentes, venho derrubando “unhas-de-gato”, venho procurando trilhas que me levem até o leitor.

Ao longo da convivência longa, de mais de noventa anos, minha mãe doou-me diuturnamente armas de afiado bem. Parafraseando Padre Antônio Vieira, a semente que não medrou não foi por falha da semeadora, mas da qualidade da terra onde foi lançada. A semeadura da mulher, porém, continua numa insistência incansável. E promete.

Quanto ao órgão de comunicação, o olhar perspicaz do leitor me fiscaliza e exige de mim uma linguagem adequada. Por isso, olhos vendados, ando na corda-bamba, quase sempre sem equilíbrio, mas insistindo, na busca de interação. Resisto e troco passos, achando que, antes do final da travessia, eu consiga, equilibrando a vontade, caminhar sem sustos, entre a linguagem literária e a linguagem jornalística.

Ontem fez noventa e oito anos que minha mãe chegou aqui. Veio para ensinar a mim, às manas e aos próximos.

Hoje faz noventa e oito anos que o Comércio da Franca desembarcou aqui, nestas colinas. Chegou num trenó carregado só de sonhos de informar e de distribuir cultura e lazer.

Minha mãe e o jornal cumpriram bem suas funções. E eu atravessei o caminho de ambos. Alguma explicação haverá para tudo isso.

Não há como não especular sobre coincidências tamanhas, não há como fechar os olhos ao fato de que junho e 1915 cruzaram o meu caminho.

Luiz Cruz de Oliveira,  é professor, escritor e membro da Academia Francana de Letras