Com oito anos de Comércio da Franca, escrever sobre religião é uma das minhas especialidades na redação. Católico de família, sempre participei da Igreja e continuo sendo católico praticante, inclusive com passagens por grupos e movimentos. Como católico atuante nunca pensei que um dia seria chamado para participar de uma reportagem investigativa - o caso do padre Dé - que pesasse contra a igreja que frequento.
Diante da gravidade da denúncia, que estourou no final de março de 2010, e por distinguir profissional de pessoal, embarquei na reportagem que investigou denúncia de prática de crimes sexuais cometidos pelo padre José Afonso Dé, na época com 74 anos, contra adolescentes que o ajudavam na paróquia São Vicente de Paulo, no Jardim Tropical. Muitos dos abusos supostamente aconteceram na casa paroquial e, segundo os menores, o padre os beijava e tocava seus órgãos genitais.
Estava em casa quando tive conhecimento da denúncia e recebi a incumbência de procurar o então bispo diocesano Dom Pedro Luiz Stringhini para confirmar a notícia. A partir desse encontro, passei a entrar em contato e entrevistar o bispo praticamente todos os dias.
Participei também de diversas coletivas com a presença do padre e viajei até Iturama e São Sebastião do Pontal, as duas em Minas Gerais, onde entrevistei pessoas que destacaram pontos comuns com as histórias relatadas em Franca pelos meninos com idade entre 12 e 17 anos.
Uma equipe especial de reportagem foi destacada para descobrir e checar a veracidade de novas histórias e contextos sobre o padre. Integrei essa equipe e percorri por diversas vezes a região em que o padre trabalhou e morou em Franca, entrevistei fiéis, vizinhos e até familiares do sacerdote. Enquanto isso, novas supostas vítimas eram intimadas a depor na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e a notícia envolvendo o padre de Franca acusado de pedofilia repercutia em todo o País.
A divulgação da história de Franca coincidiu com o momento em que escândalos sexuais envolvendo o Vaticano tomavam nova dimensão e, também, com a investigação do caso de um padre em Alagoas acusado de abusar sexualmente de adolescentes. Logo, a denúncia despertou o interesse da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia no Senado.
Em novembro de 2011, o padre foi condenado pela 2ª Vara Criminal de Franca a 60 anos e oito meses de prisão por estupro e atentado violento ao pudor após ser denunciado pelo Ministério Público pela suposta prática de crimes sexuais. Desde a condenação em primeira instância, o padre aguarda julgamento de recurso em liberdade. Durante todo esse período, a defesa do padre sempre alegou que ele é inocente e foi mal interpretado.
Ao avaliar o caso, admito que participar da investigação desse triste episódio da história da Igreja Católica em Franca foi sem dúvida um grande exercício de jornalismo e uma experiência onde aprendi “separar o joio do trigo”, mesmo dentro da igreja.