05 de abril de 2026

Valéria e Júlia Massucato: uma grande lição de vida e superação


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A editora Nelise Luques mostra foto de Valéria e Júlia Massucato: história de superação de ambas mexeu com a profissional do Comércio

Era meio da tarde de uma segunda-feira, dia 19 de janeiro de 2009. Eu estava na redação escrevendo uma matéria sobre adoção de animais apreendidos pelo canil de Franca. Finalizava o texto quando a editora-chefe do jornal, Joelma Ospedal, me chamou e disse que tinha uma matéria especial para eu fazer no dia seguinte. Os diretores do jornal tinham acabado de receber uma mulher, que prefere não ser identificada, para pedir ajuda para a cabeleireira Valéria Gomes Freitas. A ideia era fazer uma campanha, com apoio do jornal, para ajudar ela e a filha, Júlia Massucato.

Valéria decidiu falar após meses de silêncio. Estava aberta a receber a imprensa. Dali cinco dias completaria três meses que o marido dela, Hélder Massucato, tinha provocado uma tragédia em família. Na manhã do dia 24 de outubro de 2008, ele atirou na própria mulher, na cabeça dos três filhos: as gêmeas Júlia e Letícia e o caçula Alexandre, enquanto eles ainda dormiam. Matou a mãe, Lourdes. E depois se matou. Sobreviveram, com sequelas, apenas Valéria - que ficou cega do olho esquerdo por causa do tiro - e Júlia.

A cabeleireira é proprietária de um dos salões mais tradicionais de Franca e assumia as contas da família. Para cuidar da filha, se afastou do trabalho e estava com dificuldades financeiras. A reportagem era um pedido de ajuda à comunidade.

Fiquei ansiosa para a entrevista. Imaginava encontrar uma mulher abatida, angustiada e triste. Valéria tinha acabado de perder dois filhos, o marido, a sogra, estava com uma filha acamada, e tudo provocado pelo próprio marido. Uma história difícil de aceitar, de entender também. Mas o encontro me surpreendeu...

Chegou o dia da entrevista. Logo na manhã de terça-feira, eu e o fotógrafo Divaldo Moreira fomos recebidos por Valéria numa casa antiga no Centro da cidade. Valéria usava uma faixa na cabeça para esconder a cicatriz deixada pelo tiro. O olho esquerdo ficava fechado.

Sentados na copa, ouvimos o depoimento de Valéria. Ela narrou detalhes do dia da chacina. Falou da nova fase ao lado da filha. Chorou uma única vez, ao falar da morte dos outros dois filhos. Para minha surpresa, estava na minha frente uma mulher forte, muito segura e aparentemente conformada com a tragédia vivida em família.

Essa reportagem não foi marcante apenas por Valéria. Me deixou cenas que não vou esquecer. Enquanto entrevistava Valéria, ouvia gritos de uma criança vindos de um dos quartos da casa. Eles me perturbaram um pouco, confesso. Não sabia se eram gritos de dor ou apenas para chamar Valéria. Era Júlia que gritava. Depois de 74 dias internada na Santa Casa e de fazer quatro cirurgias, ela recebeu alta e estava em casa.

Depois da entrevista fomos conhecer a Júlia. Outra cena inesquecível. Júlia estava deitada numa maca. A janela entreaberta deixava um facho de luz entrar. Ela estava bem diferente das fotos que tínhamos conseguido e publicado no jornal com as notícias sobre o crime. Os cabelos estavam raspados e bem curtos. Os braços ficavam travados, cruzados sobre o peito, imóveis. Ela não conseguia esticá-los. Lembro bem dos olhos negros parados, olhando fixos para um par de patins que era da irmã gêmea e estavam sobre o guarda-roupas. Na parede, uma coleção de anjinhos observava Júlia.

Minha primeira matéria sobre Valéria e Júlia foi publicada no dia 21 de janeiro de 2009. Depois fiz mais reportagens sobre elas. Reencontrei mãe e filha dois anos após a chacina, em 2010. Dessa vez o endereço foi outro. Elas tinham voltado para a casa da rua Ouvidor Freire, onde o crime ocorreu. Outra atitude de coragem para mim.

Fui surpreendida mais uma vez. Encontrei outra Júlia. Foi emocionante. Fiquei impressionada com sua evolução. O estado semivegetativo que conheci não existia mais. Júlia estava com 12 anos. Os cabelos mais longos, as unhas pintadas de rosa. Falava algumas palavras. Tinha voltado a estudar, estava na escola da Apae. Como toda pré-adolescente, tinha seu ídolos. No dia da entrevista segurava uma foto do cantor Fiuk, filho de Fábio Júnior, autografada especialmente para ela e beijava sem parar. Júlia, que quase morreu após ser baleada na cabeça, tinha sonhos. Disse que queria ser veterinária para cuidar de gatos. “Gatos, porque cachorros irritam, latem muito”, disse.

Em 2011, em nova reportagem, Júlia estava melhor ainda. E dessa vez os planos eram outros. Ela completaria 15 anos em novembro de 2012 e sonhava voltar a andar, fazer uma festa e dançar valsa com seu paquera. Júlia não voltou a andar, mas ora na cadeira de rodas, ora em pé apoiada pela mãe, dançou e vibrou na festa de seus 15 anos. Os convidados se emocionaram. Eu estava na festa. Lembrava da cena da Júlia na maca e agora sorridente na minha frente, maquiada, com vestido de festa e feliz, muito feliz. Não tinha como conter as lágrimas.

Valéria e Júlia me ensinam que é possível superar. Superar as limitações, superar as perdas, superar as tragédias que a gente vive. Me fazem acreditar em milagre também. E, em quase dez anos de profissão (repórter), foi da “cabeleireira Valéria”, como sempre a chamamos na redação, que ouvi as frases mais marcantes e que costumo citar para as pessoas. Deixo aqui três delas registradas: “Deus nunca nos dá uma cruz mais pesada do que os nossos ombros suportam”; “A gente não pode ficar presa a momentos tristes. Decidi ser feliz”; e“A gente tem que perdoar, fazer o exercício do perdão todos os dias.”

Valéria disse que perdoou o marido. Acredita que ele sofria de esquizofrenia e teve um surto, por isso tentou dizimar toda a família.

A chacina me marcou, como marcou a muitos francanos. Mas o exemplo deixado por Valéria e Júlia são, para mim, uma grande lição de vida.