Corria o ano de 1899. A pequena cidade paulista de São José do Rio Pardo acolhia, orgulhosa, o escritor fluminense Euclides da Cunha, num casarão assobradado, de esquina. Ele e sua família. O famoso intelectual e engenheiro civil para lá se dirigira a fim de reconstruir uma ponte metálica sobre o rio Pardo. Ao mesmo tempo, baseando-se em suas reportagens sobre a guerra de Canudos (interior da Bahia), que enviara ao jornal O Estado de S.Paulo, esboçava as primeiras páginas de Os Sertões. Dizem que sua mulher, S’Aninha, já não lhe era fiel a esta altura da história.
Mas o foco é outro. Havia na cidade, nessa época, um rico barão do café, que morava num luxuoso palacete nos altos da Rua Francisquinho Dias. A arquitetura da casa lembrava um diminuto castelo, daí o nome popular de castelinho.
Era uma casa tranquila. O barão era um tanto arrogante e exigente, porém sua esposa era madame extremamente bondosa, cedia-lhe em tudo.
Ainda no verão do final daquela década, a baronesa foi acometida de ligeira enfermidade. O marido, para poupar-lhe incômodos, mudou-se para um quarto em outro andar. Na extremidade do aposento de sua esposa, havia um armário onde madame guardava seus ricos vestidos e joias.
O barão ia sempre diretamente para seu quarto, ao regressar da cidade. Mas uma noite, voltando tarde do clube, ainda com um charuto aceso entre os dedos, dirigiu-se ao quarto da esposa. Chegando em frente a este, pareceu-lhe perceber que fechavam depressa a porta do armário. Todavia, quando entrou, viu a baronesa de pé, do outro lado do quarto, junto à janela. Portanto, não fora ela que fechara o armário. Mantendo o sangue frio, disse o marido:
- Madame, há alguém naquele armário?
- Não, não há ninguém respondeu a baronesa muito naturalmente.
Ele dirigiu-se ao armário, mas ela o deteve e disse:
- Se não encontrar ninguém ali dentro, tudo estará terminado entre nós. O senhor precisa confiar em minha palavra.
Ele desferiu-lhe um olhar profundo.
- Muito bem; não o abrirei. Olhe: a salvação de sua alma e a esperança que tem na eternidade significam tudo para você. Jure por Deus que não há ninguém ali dentro e a porta permanecerá fechada.
Madame jurou. O barão chamou o criado e lhe ordenou:
- Vá buscar Giovane, o pedreiro. Diga-lhe que traga instrumentos, tijolos, cal e cimento que estão no quartinho dos fundos.
Ao chegar o pedreiro, atônito àquela hora, o barão lhe disse bruscamente:
- Faça um muro cobrindo toda a porta deste armário, depressa e em silêncio. Execute bem a tarefa e nunca lhe faltará dinheiro... Enquanto guardar em segredo o que se passa.
O pedreiro, quando quebrou um dos vidros do armário, jura que viu um par de olhos, a fuzilar de horror, que mergulharam nos seus, sem que ouvisse, contudo, o mínimo ruído. Quando a obra terminou, alvorecia. O barão chamou o mordomo e lhe ordenou:
- Minha senhora está enferma. Não quero deixá-la a sós um só instante. Sirva-nos as refeições aqui mesmo no quarto.
Durante vinte dias o casal permaneceu no quarto. Certa feita, ainda nos primeiros dias, ouviram-se uns ruídos abafados que vinham do armário e madame, prestes a desmaiar, soltou um grito. Mas o barão interrompeu com uma frase:
- A senhora jurou por Deus que ali não havia ninguém. É o que basta.
Algum tempo depois, os sons cessaram. Ouvia-se apenas madame, que chorava baixinho.
Quando Euclides da Cunha, já no Rio, soube da história, apenas teria dito:
- É assim que deve ser!
Euclides seria morto por Dilermando de Assis, dias mais tarde, por questões passionais. Euclides demorou em agir.