08 de julho de 2026

A Bastilha brasileira


| Tempo de leitura: 2 min

Chamar de Bastilha o que está acontecendo no Brasil nestas últimas semanas é um exagero enorme, mas não é tanto quanto falar em ‘primavera brasileira’, ou revolução, ou o gigante acordou, etc. As tais ‘primaveras árabes’ estão acontecendo em países ditatoriais e fechados, nenhuma semelhança com nosso sistema que é muito democrático. Embora com problemas, como estamos testemunhando.

Temos, entretanto, algumas semelhanças com a França do século XVIII. A classe política estava alheia ao ‘povo’ tal qual a realeza. Jornalistas tiveram papel fundamental na disseminação das ideias, como Camille Desmoulins, e a tropa de choque atacou indiscriminadamente, igualzinho aos soldados da Bastilha, que provocou valentia inimaginável no povo.

O primeiro ‘protesto’ que vi na minha vida foi o movimento pela ‘Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita’, em 1979, uma luta pouco lembrada pelos brasileiros atuais, talvez porque os atores do Brasil atual estavam fora do país, exilados. Depois veio o movimento das ‘Diretas Já’ que fracassou. E então, o impedimento do presidente Collor.

Nestas manifestações atuais, algo inédito no mundo, o movimento nasceu espontâneo, alimentado pelo Facebook. A influência da internet não é ‘insight’, é fato comprovado pela pesquisa do Ibope, junto aos manifestantes. A pesquisa mostrou que aquela rede social mobilizou 85% dos manifestantes.

Essas manifestações também surpreenderam políticos e marqueteiros. Ninguém previu, nem viu o que estava acontecendo. Quando perceberam, os manifestantes se contavam em dezenas de milhares nas cidades. Tanto foi assim que tivemos que assistir o ministro da Justiça oferecer ajuda a São Paulo, pelos jornais. Até o prefeito Fernando Haddad criticou a agressividade da Polícia Militar paulista. Está certo que, logo em seguida, sofria na pele a depredação da prefeitura. Ainda seguindo a onda, Brasília explodiu, com a presidente Dilma no centro do picadeiro sendo vaiada na estreia da Copa e, em seguida, nas manifestações de rua.

Na segunda-feira, 17 de junho, o governador Alckmin proibiu a PM de usar balas de borracha e de entrar em conflito. Tirando o conflito na prefeitura, no Estado de São Paulo foi tranquilo, diferente do resto do país... No Rio de Janeiro, exemplo, segundo o ministro da Justiça, a PM deu até tiros de metralhadora para espantar manifestantes. Tiros também foram disparados pela Polícia Rodoviária Federal em São José dos Campos... E. Federal, senhor ministro da Justiça.

Mas o que dizer da Polícia? Erros graves. Ainda não sabem o que fazer. Em São Paulo, por três manifestos reprimiram pouco os anarquistas. No quarto, reprimiu duramente todo mundo. Na sequência, apenas assistiu depredações sem nada fazer. Tudo errado. Tudo anárquico. Primeiro, quem porta coquetel molotov, máscara, pedras, porrete, bombas e congêneres, é criminoso. Bandido tem que ser capturado, senão, continua a agir. Troquem as bombas de gás por ‘teaser’, a arma de choque, derrubem e prendam. Alô PM! Chega de rodovias ocupadas! Chega de saques! Basta de ônibus queimados!

Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais