Vivemos uma época de mudanças tão rápidas e radicais que não sabemos aonde vão parar os meios de comunicação de massa atuais. Penso que, para felicidade de todos nós, os mais maduros, os jornais, as revistas (de papel) e até as emissoras de rádio AM ainda resistem com suas programações importantes e agradáveis. Não fosse isso, eu já estaria com dificuldades para encontrar informações do cotidiano e até certa companhia confiável que esses veículos oferecem. Não é que não goste ou não saiba usar dos novos equipamentos eletrônicos. Com modesta desenvoltura também sei usar um celular como telefone, ou um microcomputador como meio de escrever e até de armazenar textos. Mas o fato é que os jornais, as notícias do rádio, as revistas com suas resenhas da semana têm um charme do qual não consigo me desligar.
Mas lá pelo início dos anos 1960, apesar de já haver televisão no Brasil, o rádio era o meio de comunicação e entretenimento mais importante que havia no interior do país. Principalmente nas zonas rurais, o aparelho receptor à pilha, com suas imensas antenas suspensas por bambus, concediam distinção e status aos seus proprietários. Dona Maria Aurora, uma vizinha que morava mais ou menos próximo à nossa casa, na zona rural do município de Cássia, no Estado de Minas Gerais, e que também era viúva como minha mãe, costumava nos convidar para ir à casa dela à noite ouvir rádio. Minha mãe ia com os três filhos pequenos. O primeiro convite da simpática vizinha teve objetivo piedoso, porque minha mãe ficara viúva muito nova, com filhos pequenos ainda, e morando naquele lugar bastante afastado do centro urbano para a época. No início ouvíamos a leitura de textos bíblicos e as mensagens reconfortantes de Alziro Zarur, transmitidas pelas ondas da Rádio Mundial. Depois, enquanto as duas conversavam, nós crianças ficávamos à volta do fogão de lenha nos aquecendo e tomando chás que a bondosa senhora preparava. No início, é bom que não deixe escapar, nós todos, inclusive minha mãe, ficávamos abismados com o fato de o rádio trazer de tão longe a fala das pessoas. E nós, crianças, meio desconfiadas, olhando para as luzinhas das válvulas se acenderem vagarosamente dentro do aparelho, sem entender bem como aquilo funciona, já que dentro dele não cabia uma pessoa. Com o passar do tempo fomos acostumando com a novidade e, em dias alternados, já escutávamos também os “caipiras”, as duplas sertanejas que cantavam ao vivo nos programas de auditório, ou até ouvíamos o noticiário do mundo inteiro, na voz vibrante do Repórter Esso, uma das maiores atrações da época. Vez ou outra ouvíamos também alguns capítulos da novela Juvêncio, o Justiceiro do Sertão, transmitida pela Rádio Piratininga. Penso até que, por influência da novela, ganhei de meu pai o apelido de Juquinha, o nome do menino coadjuvante do herói da ficção. Entre a nossa casa e a de dona Maria Aurora havia um pequeno vale coberto de vegetação, com um córrego ao fundo. O conjunto de árvores e cipós formava uma brenha que, à noite, ganhava contornos assustadores em torno do caminho. Os inimigos do Justiceiro do Sertão, além de maus, traziam sempre algum traço sobrenatural e misterioso, revelado pelos nomes exóticos e insinuantes, pela trilha sonora composta de músicas cheias de acordes agudos e com andamentos sempre vivacíssimos. O Caveira, O Corrupião da Morte eram nomes fortes e sugestivos, impressionavam. A esses fatores somava-se o espaço deixado para a imaginação do ouvinte, algo que só o rádio é capaz de oferecer. O resultado de tudo é que nossos serões na casa de dona Maria Aurora terminavam sempre em uma grande aventura -o retorno para casa através da trilha, beirando a pequena capoeira e ainda passando por uma ponte constituída de um único tronco de árvore lavrado na parte superior, entre nós conhecida como pinguela. Os ruídos sombrios da noite eram incrementados pela fértil imaginação infantil e todos nós sempre tínhamos histórias para contar.