Especialistas em movimentos políticos e sociais ouvidos pelo Comércio são unânimes em afirmar que, depois das manifestações dos últimos dias que ocorreram em mais de 430 cidades do Brasil, o modo como se faz política no País deve sofrer mudanças.
Fernando Azevedo, cientista político e professor da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), disse que os protestos deverão ter um grande impacto já na campanha eleitoral do ano que vem, em que deverão ser eleitos deputados estaduais e federais, senadores, governadores e o presidente do do Brasil. “Os partidos políticos como um todo foram duramente criticados. Eles estão sendo cobrados e terão que dar uma resposta para essa população. Considero difícil que o povo brasileiro aceite o mesmo discurso que vem sendo feito.”
A mesma opinião tem o sociólogo e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Agnaldo Barbosa. “É inegável que a classe política assistiu a esses protestos perplexa. A movimentação nas ruas fez com que a presidente do Brasil fizesse um comunicado nacional. Mas o impacto só será efetivamente verificado se esses movimentos tiverem continuidade.”
Para Azevedo, o grande desafio é conseguir manter vivos os protestos. “Quando um movimento começa espontaneamente, como foi o caso, sem uma liderança clara, sem uma pauta objetiva, sem uma relação de verticalidade entre os líderes e a massa, o natural é que ele acabe perdendo força. Por isso, é preciso que todos fiquem atentos e não se percam.”
O sociólogo Agnaldo também aponta a continuidade como a maior dificuldade. “Para que a nação possa obter um resultado mais transformador é preciso que o brasileiro, o francano não se canse de lutar por seus direitos, por seus ideais.”
Os dois também concordam que o motivo que levou tantas pessoas às ruas - segundo a Confederação Nacional dos Municípios, seriam mais de 2 milhões, foi a insatisfação. “É um movimento que não tem uma bandeira única. As reivindicações são difusas. O que uniu as pessoas foi a insatisfação, seja com a falta de qualidade no transporte, na educação ou a insegurança”, disse Agnaldo.