Finalmente, os bons decidiram mostrar que são um povo, e não público silente, cabeça baixa, cordeiro, que engole sapos e os digere, mesmo contra a vontade
Havia um silêncio massacrante no ar. Aos olhos, o faz-de-conta do pregado melhor país do mundo. Nas gargantas, gosto de fel. No rosto, ar triste, sorriso amarelo. Não se sabe por quem, quando e nem onde. Fato é que os sapos não digeridos começaram a ser vomitados. Aqui. Ali. Lá. Acolá. Onde havia alguém cujo copo tivesse, finalmente, transbordado, o grito de ‘chega’ ecoou.
Foi a primeira de uma série de quebras de paradigma. Dizia-se que a gente podia gritar o quanto quisesse, que ninguém ouviria. Era gritar no deserto. As redes sociais que já estavam ai, foi o megafone definitivo. Desertos se tornaram pequenos quintais. Tornamo-nos a ‘aldeia global’ pregada lá nos anos 60 por Marshall MacLuhan. Os gritos foram ouvidos, e ecoaram, mas as autoridades nacionais, mesmo surpresas, entenderam que ficaria por ai.
Foi como rastilho de pólvora, no entanto. Havia combustível e fogo nas ventas. Coração finalmente livre, o brasileiro viu que ainda tinha força. O segundo paradigma se partiu: não era preciso um único foco. Bastou deixar aflorar o desejo de mudança. A multiplicado aconteceu no terreno fértil de incontáveis desejos iguais. Não foi só pelos centavos a mais por passagem de ônibus. Não tem sido só pelo mau uso do dinheiro público. Não tem sido só pelo pão e circo que marqueteiros dizem que acalmam e passam a mão na cabeça das massas. Não tem sido só pela insegurança pública, institucionalizada. Não tem sido só pela impunidade, filha bastarda dos que fazem leis que permitem bandidos rindo na cara de agentes de segurança e de nossa gente. Não tem sido só pelos salários de fome que professores recebem, diferente da valorização que países sérios lhes dão. Não tem sido só pela saúde pública depauperada, que obriga hospitais a andarem pedindo, como mendigos, para cumprir a missão constitucional de garantir saúde à população. Não tem sido só pela corrupção desmedida, que leva a bolsos imorais, o resultado do suor do povo brasileiro. Não tem sido só pela sandice de governantes que se julgam deuses, relegando todos os outros à escravidão de servidão enfiada goela abaixo.
O povo não está nas ruas por nada disso exclusivamente, mas está, isto sim, por tudo isso ao mesmo tempo! Nossa consciência, finalmente, cobrou responsabilidade quanto ao país de conto de fadas que, com nossa inércia e silêncio, estávamos apoiando!
Contrariando o “sem foco, não há resultado’, o terceiro paradigma se quebrou. O grande movimento nacional se apoia na ética, em exercício de cidadania, e proporciona que cada um exponha o que lhe causa aversão. O que une é a certeza - triste - das pessoas em saberem-se igualmente espoliadas, desrespeitadas. Mesmo assim, não há raiva. É pacífica, a voz dos bons!
Não há lideranças, e isso caracteriza o quarto paradigma partido. Não há planos, códigos de conduta. Não há cores partidárias, raça, classes sociais, religião. As massas, democráticas estão exorcizando, de sim, partidos políticos, sindicatos, bandidagem, baderna. Os brasileiros protestam nus, desarmados. O que une tudo está expresso em ‘Basta!’, ‘Estamos aqui!’, ‘Estamos de olho!’
Penso que a curto prazo, governos providenciarão modificações pontuais para tentar arrefecer o histórico movimento. Estão certos de que as grandes massas se reduzirão e haverá tempo para que se rearticulem, respirem. Pode ser, mas, que se cuidem!
Quando um povo adquire consciência a partir do sofrimento, e a História é pródiga em exemplos, não acaba mais. Estou certo que resultado desse movimento pacífico e importante do povo brasileiro vai se consolidar ano que vem, nas eleições para presidente da República, governadores de Estados, deputados e senadores. As pessoas, ao que parece, finalmente compreenderam que está nas leis a origem de virtudes e desgraças que se abatem sobre o País. Mudá-las para que forjem o país melhor que pretendemos passa, necessariamente, por profundas modificações políticas, estruturais, legais. E isso, só legisladores comprometidos com ética podem realizar.
Na empresa privada, se executivo não tem competência, é sumariamente substituído. Preparem-se, homens públicos. Vou repetir-lhes a mensagem principal das ruas: ‘Basta!’, ‘Estamos aqui!’, ‘Estamos de olho!’ O coração do povo brasileiro voltou a batercom suas próprias forças, e esse é o quinto paradigma quebrado.
LIVRES PENSARES
“A turma do mal é menor que a turma do bem, mas parece que é mais forte e manda no País. Está infiltrada em todas as classes sociais, em todas as esferas de governo, nos poderes. Até aqui, vence. Agora, finalmente, os do bem estão nas ruas. É a hora”. (Cláudio A. Borges, presidente da Associação Sabesp/Franca).
“É o tempo de reagir. As leis precisam ser mais duras e a aplicação deve ser real, capaz de dar ao cidadão novas esperanças em um país melhor e seguro”. (João Bittar Filho, advogado).
“É raro encontrar brasileiro patriota. O país está do jeito que está por nossa causa. Somos nós que colocamos corruptos no poder. Temos que fazer algo. Esta é a nossa pátria! Temos que cuidar dela, defendê-la, principalmente contra os que pensam só em si mesmos”. (Edward de Souza, jornalista).
“Como ser otimista se no Congresso existem, há mais de 30 anos, cerca de 150 projetos de segurança pública que nunca foram votados em plenário? O que esperar de uma comissão de Constituição e Justiça que tem entre seus pares, condenados por formação de quadrilha? Tomara que a força do povo, nossa voz viva, finalmente, ajude a fazer diferença”. (Amir Antônio Miguel, ex-Delegado Seccional de Polícia, aposentado).
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br