Com pouco mais de 20 anos de jornalismo nas costas, o manifesto de ontem foi o primeiro de grande porte que cobri. Foi emocionante ter participado deste momento histórico. Escolhi a universitária e colega de jornal, Brenda Borges, para encerrar minhas entrevistas para a rádio Difusora. Aos 18 anos, ela não havia nascido quando jovens como ela pintaram suas caras e foram para as ruas gritar: “Fora Collor”. Ontem, Brenda coloriu sua face de verde e amarelo e também foi protestar contra a corrupção. “Foi lindo, maravilhoso, estou emocionada. Jamais vou me esquecer deste dia.”
A exemplo de milhares de outras pessoas de bem, Brenda retornou para casa orgulhosa, com a certeza do dever cumprido. Ela não imaginava o que aconteceria logo depois. Encerrada a cobertura para a rádio, retornei para o jornal, abri uma garrafa de cerveja para brindar a elogiada transmissão. Não deu tempo de beber. O repórter policial Barros Filho entrou no estúdio e deu a notícia que ninguém queria ouvir: “O bicho está pegando no Centro”.
Nem sei aonde foi parar a cerveja. Corrêa Neves Júnior, Leandro Vaz, Wilker Maia, Irinéa Donizete e eu fomos correndo para o Centro ver o que estava acontecendo. Os colegas Vinícius Maia, Paulo Martins e Dirceu Garcia já haviam se deslocado de outros pontos para lá. Viaturas da Polícia Militar bloqueavam o tráfego de veículos no entorno do terminal de ônibus. Deixamos nosso carro em um ponto que imaginávamos seguro e fomos andando de encontro a uma das cenas mais deprimentes já registradas na cidade. Nos deparamos com uma praça de guerra.
Enquanto andávamos, sentimos na pele - e também no nariz e olhos - os efeitos do tal gás lacrimogêneo usado para dispersar confusões, que antes só tinha ouvido falar. Não recomendo. Vencida a tormenta do gás que dificultou nossa participação na rádio, nos deparamos com vândalos com os rostos cobertos destruindo tudo o que encontravam pela frente na Praça Barão. Vitrines foram quebradas, portas arrombadas, lojas saqueadas. “Calculo que o prejuízo gira em torno de R$ 2 mil. Foram aproximadamente 120 peças de roupas levadas. O protesto não tem nada a ver com quem tem loja, mas acabamos pagando um preço que não merecemos”, lamentou o comerciante Sílvio Henrique Mariano, 40.
Os vândalos tentaram incendiar um ônibus que a empresa São José, teimosamente, não tirou de circulação mesmo sabendo que era o alvo principal dos protestos. O terminal foi depredado. Telefones públicos foram destruídos e lixeiras incendiadas. Bombeiros foram acionados para dizimar as barricadas de fogo. A Força da Tática da Polícia Militar entrou em ação e expulsou os arruaceiros. Sem dar um tiro, sem cometer agressões.
Fumaça, destroços e cheiro de gás tomavam conta da praça. Fomos insultados. O clima estava pesado. Voltamos para o jornal. Era preciso escrever a história do dia em que vândalos mancharam o espetáculo maravilhoso que havia sido proporcionado pelas pessoas de bem.
Mancharam, mas não estragaram!
Veja os vídeos:
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