Sonhava conhecer Cuba. Vários e fortes motivos: a história, a luta ideológica, o sonho de igualdade, cultura, fraternidade, independência, coragem
Entrar em contato com a pátria dos músicos maravilhosos que embalaram sonhos e referências desde a infância: minha mãe trabalhava ao som dos boleros, rumbas, mambos, e meu pai não podia ouvir Aquellos Ojos Verdes, que saía a procurar a mulher só para dançar com ela. Agarradinho.
Tomei porres homéricos de Cuba Libre. Sei praticamente todas as letras das músicas do Buena Vista Social Club. Não conheci Ibrahim Ferrer pessoalmente, mas vi Omara Portuondo de pertinho. Fico emocionada com o privilégio de ter quase todos os discos do grupo.
Acho que Hemingway tinha razão no fascínio por Havana: deve ter sido uma das cidades mais bonitas do mundo. E a paixão na adolescência por Che e por Cienfuegos, legítimos cavaleiros montados no cavalo branco, também ajudou, claro.
Pois ganhei a viagem, como presente de aniversário. De cima, a ilha mostrou-se linda, paradisíaca: ou era meu sonho se realizando? No aeroporto internacional José Marti, ligeiro incômodo: intensa movimentação, o caos ao redor de apenas duas pequenas esteiras, as guardas de uniformes caqui, minissaia, meias rendadas (de dançar tango) pretas. Esquisito. Estava mais para rodoviária, das antigas. Pacotes e mais pacotes saíam, envolvidos em plástico verde que não obstruíam a identificação visual do conteúdo: televisores de plasma de todos os tamanhos e microondas, em sua maioria. Uma ou outra mala: a bagagem de dois vôos recém-chegados de Miami, que pousaram minutos antes do nosso. Depois do desconforto da espera, do medo de extravio, eis que surgem nossas maletas. Duas horas de espera.
Hotéis - para turistas - maravilhosos. Carros da década de 50, para locomoção. E o processo da minha desilusão, se desenrolando. Os cubanos se acostumaram a pedir para os estrangeiros, sem constrangimento: ‘O que você tem para me dar?’, ‘Você podia me dar uma destas pulseiras que está usando: é aniversário de quinze anos de minha filha e eu não tenho o que dar a ela’, ‘Dá-me um dolito (um peso cubano)!’, ‘Me dá seu batom?’. E a prostituição - masculina e feminina - praticada às escâncaras, sem constrangimento.
Visitei fazenda de tabaco, entrei cento e poucos quilômetros nas estradas de Cuba. Sob as pontes do percurso, pessoas se amontoavam esperando carona, porque não há transporte público coletivo. Não vi tratores: o plantio de arroz, cana e tabaco é feito com as antigas parelhas - dois bois, um homem e o arado. Não há souvenirs disponíveis no comércio para turistas. O pouco que consegui foram peças artesanais feitas por linda e jovem estudante de economia que os produz a fim de poder comprar livros e se manter na universidade: ela conta que, como os outros estudantes cubanos (porque os estudantes brasileiros que fazem medicina lá, têm tratamento diferenciado) não paga os estudos, mas o material e sua sobrevivência, são da competência dela garantir. O governo não lhe dá, não.
A arquitetura de Havana - por trás das folhas de flandres, papelões e divisórias de madeirit - é maravilhosa quando e se olhada através de óculos com photoshop instalado. As referências à arquitetura dos anos 20 e 30 são de deixar os admiradores da Art Nouveau e da Art Déco boquiabertos. O Passeo Del Prado, batizado José Marti, é lindíssimo - se o ícone de Paris é a Ponte Alexandre III, se o de Londres é Buckingham, o de Havana é o Passeo. O povo não tem supermercados, só toscas vendas. Falam que Alicia Alonso reformará o Teatro de Havana - hoje arrebentado, porém mais bonito que o Opéra, de Paris. A médica que me atendeu, como muitos cubanos, não tinha o primeiro molar. A música continua deslumbrante. E ninguém sabe onde está Fidel.
BRASIL
‘É preciso comprometimento: trabalho. É preciso reverência e orgulho ao usar as cores do Brasil. É preciso perseverança: acreditar. É necessário uma atitude tolerante: esperança. É fundamental ter coragem: seguir em frente. É imprescindível acreditar no Brasil do Hoje, um país em busca de Ordem e Progresso.’ (Texto sobreposto à ilustração gráfica com as cores do Brasil, na caixa que levava a Bandeira Brasileira como brinde aos clientes de empresa de calçados de Franca. Anos 90, quando acreditávamos que o país se encontrava na decolagem rumo ao crescimento e fim da bandalheira.
LAZER
Final de semana: tranquilidade e descontração - descanso. Descanso, lazer. Lazer, filmes. Filmes, dois modernos, dois antigos. Os modernos, xarás: O Quarteto. Um deles, drama - The Late Quartet - dirigido por Yaron Zilberman, com Catherine Keener e Christopher Walken. O outro, comédia inglesa - The Quartet, no original - com Maggie Smith, Tom Courtenay; direção de Dustin Hoffman. Os dois filmes antigos, ambos baseados em fatos reais, também homônimos, levam o título de Em nome de Deus. O antigo é a história de Abelardo e Heloísa (com Derek de Lint e Kim Thomson); o mais novo, a história das ‘irmãs madalenas’, irlandês.
MEDO
Mineiro, morador de Franca, fornecedor de couro para a fábrica de bolsas Louis Vuitton, foi procurado, por telefone, pela equipe francesa. A fábrica estava parada: bicho estranho encontrado no carregamento de matéria-prima exportada para a França, recém-chegado à cidadezinha ao sul de Paris, apavorava os trabalhadores. Chamaram-no de bicho exótico e, garantiam, jamais visto por aquelas paragens. Fotografaram a besta e mandaram a foto por telefone mesmo. Era uma lagartixa, chamada calango ali no nordeste, de onde partira para a Europa. Foi preciso enviar laudo garantindo que o animal era bonzinho. E, também, providenciar parecer do Ministério da Saúde confirmando a baixa periculosidade do mini-dragão.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br