08 de julho de 2026

‘Mãe, você quebrou...?’


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Fui à passeata, terça-feira, dia 18 de junho. Momento histórico. Milhares tomaram ruas do centro de São Paulo. Fiquei impressionada. Há tempos não via tanta gente reunida e se manifestando a ponto de conseguir mobilizar o país.

Classes sociais diferentes. Crianças, jovens, adultos, idosos. Estudantes, médicos, advogados, economistas, empregadas domésticas, jornalistas, bancários, porteiros, empresários, executivos, advogados, dentistas, professores, garçons, cinegrafistas, aposentados, das mais diversas origens, mas com foco comum: a reivindicação por um país mais justo.

Não era apenas pelo aumento da passagem de ônibus que, em tese, deflagrou a mobilização. Era um protesto por tudo o que estava entalado na garganta e não saía: gastos com a Copa, aumentos exagerados de tarifas, impostos, baixos salários, péssima educação, péssima saúde, falta de transporte público adequado, INSS, gastos exacerbados com obras públicas, e tantas outras solicitações. Nem Feliciano foi esquecido!

De cada três participantes, um portava cartaz, com seu pedido pessoal. As escadarias da Catedral da Sé estavam tomadas por placas. Emocionada, vi pai carregando cartaz onde se lia ‘Meu filho, estou aqui por você. Para que você tenha educação, saúde e uma vida mais digna’. Tirei foto. Coaduno com sua escrita.

Muitas palavras de ordem: ‘Ei, Brasil! Um professor vale mais do que o Neymar’. Chorei. Minha mãe é professora. Aliás, ela é mais do que isto. É educadora.

Um outro senhor, e seu cartaz: ‘Tenho 64 anos e acordei agora. Acorda, Brasil’. Eram milhares de cartazes feitos com as próprias mãos, em cartolina, papelão, caixas velhas, panos, camisetas. Uma miscelânea de formas e cores. Lençóis brancos tremulavam em janelas de edifícios.

Infelizmente, nem todos estavam ali pelo mesmo propósito. Um grupo de punks tentou arrumar confusão, porque alguém olhou para seu cabelo. O cheiro de maconha também estava presente, entoado pela cantiga: ‘Hei, Haddad, busão custa mais que a maconha’...

De repente, os ânimos se acirraram. Era possível constatar: ‘fulano está com sangue nos olhos’. Muito palavrão. Muito xingamento às autoridades presentes e passadas.

O que mais me assustou foi a truculência com que o jornalista Caco Barcellos, da Globo, foi tratado na minha frente. Estávamos em bar, na esquina da Benjamin Constant com a Praça da Sé. Ele entra. Percebera sua presença e começam a gritar contra a Globo, apontando-o. Um deles jogou-lhe uma camisa. Não me contive. Gritei, pedindo “agressão, não!’

O gerente do bar fechou as portas e as janelas. Do lado de fora, pessoas batiam fortemente nas portas e gritavam contra a televisão e sua política. Sensação de impotência, medo e insegurança... Fiquei, literalmente, morrendo de medo de algo mais sério. Não tivessem as portas sido fechadas... Quase meia hora depois, as pouco menos de vinte pessoas que ficaram presas no bar, saíram lentamente. O repórter se resguardava. Horas mais tarde, um carro da Record foi incendiado.

Meu filho, de seis anos, me perguntou: ‘Mamãe, você quebrou a prefeitura?’. Meus olhos se encheram de lágrimas. Expliquei-lhe sobre protesto, manifestação, e como as solicitações da comunidade devem ser legitimadas pela passividade. ‘Meu filho, quem danificou o prédio, foram indivíduos que expressaram erroneamente seus sentimentos de revolta e indignação contra atos dos líderes de nossa nação’. Ele, atento: ‘’Ah, mamãe, entendi. Esses vândalos estão errados.’ Ufa...

Acredito piamente que o povo brasileiro acordou. O gigante despertou. O acesso à informação fez com que a sociedade soubesse o que é melhor para si. Os olhos não mais ficarão fechados. Pode ser o início de uma nova era.

Viviane Nunes
Jornalista