No início, eram manifestações contra o reajuste no preço da passagem do transporte coletivo. Porém, nos últimos dois dias o foco dos protestos foi mudando. A partir de sexta-feira passada, dia 14, passaram a investir contra os gastos do País para sediar a Copa das Confederações (que começou no sábado) e a Copa do Mundo, que deverá ocorrer no ano que vem. Já diante da quase invasão do Congresso Nacional em Brasília, na noite de segunda-feira, a insatisfação popular com a classe política em geral e os corruptos em particular tornou-se o principal mote dos diversos movimentos que pipocaram no País naquela noite.
Depois que a repressão policial foi duramente criticada no final da última semana, em São Paulo, na noite de segunda a Polícia Militar cumpriu exemplarmente seu dever na Capital do Estado: acompanhou a passeata sem interferir, trabalhou para torná-la menos prejudicial ao trânsito e só interveio quando foi estritamente necessário. E isso ocorreu quando cerca de 30 manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Aí, só foram usadas bombas de gás lacrimogêneo. Os fuzis com balas de borracha foram abandonados e os agentes policiais evitaram o corpo-a-corpo com os manifestantes, cumprindo o que tinha sido acordado entre os organizadores do protesto e a cúpula da Secretaria da Segurança Pública do Estado.
Já no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em Belo Horizonte, os confrontos ocorreram entre os integrantes da passeata e os agentes de segurança. No Rio, a violência tornou-se exacerbada quando houve uma tentativa de invadir a Assembleia Legislativa. Antes disso, por onde passou o movimento permaneceu uma trilha de depredações, inclusive com dois automóveis inteiramente queimados. A balbúrdia tomou conta e ontem se viam em diversos pontos da cidade sinais da ação condenável na noite anterior: prédios e monumentos pichados, estabelecimentos comerciais depredados e ruas cheias de entulhos.
Quando defende a liberdade de expressão e de manifestação, o Comércio não pode deixar de condenar a forma como se portaram alguns dos integrantes da passeata, assim como desaprova a reação mais truculenta da polícia. E nos casos em tela, seria leviano responsabilizar uma parte ou outra. Na sexta-feira, em São Paulo, e na noite de segunda, no Rio, houve excessos de ambos os lados. Enquanto a polícia não pode espancar aleatoriamente cidadãos que apenas tentam se fazer ouvir, também a minoria que praticou o vandalismo em meio aos protestos agiu como marginal, danificando bens públicos e particulares. O direito à manifestação é legítimo e salutar, mas não se pode confundir protesto com anarquia. Assim como a polícia também não pode extrapolar de sua função de oferecer segurança à população. Espera-se que, a partir de agora, ambos os lados busquem um equilíbrio para que fatos como os estampados em jornais e mostrados pela TV nos últimos dias não se repitam.